Blog do Aldo Bizzocchi
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Abril/2013


A graça da palavra "graça"

Aldo Bizzocchi

O que há de comum entre as palavras "graça", "grato", "gratidão", "agradecer", "agradar", "desgraça", "desgraçado", "engraçado", "grátis", "gratificar", "congratular", e destas com "favor", "mercê" e "obrigado"? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical "graç‑", "grat‑" ou "grad‑", que remete à raiz latina "grat‑", de "gratus" (grato, agradecido). Portanto, o latim "gratia", qualidade de "gratus", e que deu o nosso "graça", era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra "favor", da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário.

(Será que hoje essa reciprocidade ainda existe?) E assim temos a explicação de por que dizemos "obrigado" ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, "de graça" ou "grátis". Por isso, em espanhol se diz "gracias", em italiano "grazie" e em francês "merci" (que quer dizer "mercê", ou seja, "favor") em lugar do nosso "obrigado". Por isso também, a Virgem Maria é "cheia de graça", de generosidade. E a exclamação "Graças a Deus!" é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, "agradar" significa "tornar grato, receptivo, simpático". E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, "engraçado". Daí que "graça" também passou a significar "alegria, jovialidade" (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, "hilaridade, comédia". Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o - financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça.

Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um "desgraçado". Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas "infeliz", assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Finalmente, "favor", que não tem relação etimológica com "graça", mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, "favorito", que quer dizer "favorecido". Assim, quando dizemos que num concurso público houve favorecimento a um dos candidatos, o que estamos dizendo é que o vencedor era favorito desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país.


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