Linguagem
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Outubro/2012


Política

O vazio do discurso

Como uma linguagem vaga pode transformar-se em ferramenta de manipulação eleitoral

Marcelo Gallio Januário

A reta final das eleições municipais ferve o Brasil, mas vem de um candidato norte-americano a lição de que é preciso humor para lidar com o vácuo do discurso político. O presidente dos EUA e postulante à reeleição Barack Obama usou a pompa e circunstância de um evento oficial exótico - a anistia de dois perus na cerimônia de Ação de Graças, em Washington, em novembro do ano passado - para destilar veneno na imprensa e em colegas políticos.


"Eles receberam a parte mais importante de seu treinamento de mídia, que implica aprender como cacarejar sem realmente dizer nada."


Às vésperas da eleição municipal brasileira, neste outubro, e da norte-americana, em 6 de novembro, a brincadeira de Obama destinada aos jornalistas que cobriam o Thanksgiving - uma tradição iniciada por John Kennedy e desde então cumprida todo ano - cabe como luva na lavra dos homens públicos, em particular aqueles dados a "cacarejar sem realmente dizer nada" ("how to gobble without really saying anything").


Essa langue de bois, ou "novilíngua", é o processo de manipulação da linguagem que invade o campo político, esvazia o discurso e, como pesadelo de Orwell, instrumentaliza a esfera pública. Não é preciso ver o horário eleitoral gratuito para testemunhar isso, com seus genéricos "A cidade precisa de saúde (de segurança, de educação, etc.") e outros ditos etéreos. Não poucos percebem níveis na linguagem de interlocutores não espontâneos, a expressão artificial de um falar sem dizer.


- Esta é a língua de boa parte dos políticos. Para dissimular ou por pura exibição, recorre-se a chavões, eufemismos, conceitos abstratos ou banalidades. É o apelo ao discurso pomposo, com palavras de efeito, adjetivos e advérbios que pouco agregam. Tudo estruturado para se distanciar do principal ponto de questionamento - crava Fernando Birman, diretor do grupo Rhodia, estudioso do tema.


Níveis
Na França, onde Birman residiu por quatro anos, debate-se a necessidade do parler vrai, o falar sincero, ou langue de coeur (língua do coração), pois muitos já não suportam o palavreado vazio da política, ainda mais na era pós-François Hollande. A língua do coração é aquela em que se exprimem impulsos, desejos e prazeres de maneira dialógica e por vezes impulsiva. Nem se trata de contar verdades em público, mas ser acessível e também preciso, coisa rara no meio político. Nesse aspecto, o ex-presidente Lula, por exemplo, raramente recorre à langue de bois.


- Seu discurso é simples e acessível, e isso não significa que nunca minta - diz Birman.


No Brasil, o discurso político é encarado como mera "enrolação", fala que raramente comunica algo concreto. Ocorre que a empulhação pode não ser desvio. Nem regra. Mas a evidência de que o vazio da lábia já é encarado como índice descarado de manipulação, forma de resguardar-se sem apelar a mentiras escrachadas.


- Nas democracias-espetáculo, como a nossa e as dos grandes países, os conteúdos dos discursos políticos tendem a convergir. Todos tentam satisfazer as mesmas preocupações do eleitor com as mesmas respostas - avalia Bernardo Kucinski, professor da USP e ex-assessor de comunicação da Presidência da República, no primeiro mandato de Lula.


Interesses
Em situações ritualizadas e documentadas pela imprensa, homens públicos representam posições raramente individuais, mas ligadas a interesses, partidos, frentes e coligações.


- O discurso do político é uma elaboração coletiva e, nesse sentido, se distingue muito da fala do indivíduo - pontua Kucinski.


O político, no entanto, não precisa explorar um jargão, pois as declarações da maior parte dos profissionais não são amplificadas pela mídia, como as dele.


- Em um número grande de ocasiões, o político não crê no que fala. Foi pautado por marqueteiros e segue orientação do líder da bancada, cuja posição muda ao sabor da conjuntura. Se na base do governo, diz uma coisa. Se na oposição, diz o contrário - acusa Soninha Francine, que este ano se lançou à Prefeitura de São Paulo pelo PPS.


Magia
Há, no impulso retórico da enrolação vazia, a tentativa de "enfeitiçar" a realidade pela retórica, de afirmar que a confiança no que é dito substitui ou vale tanto quanto a realidade. Há certa ausência de referenciais e uma língua ritualizada, com expressões engessadas e eufemismos, que partilham com a magia a convicção de que a coisa em si aparece pela garantia da palavra, não pela força das evidências. A "magia" linguística é característica da forma mítica de pensar, que identifica o pensamento à própria existência de algo.


- O discurso político tem sempre mais sucesso quando se vale explícita e implicitamente das instituições imaginárias da sociedade, os mitos, as figuras do herói ou traidor, do grande pai, da mãe geratriz de tudo - explica Kucinski.


Para Patrick Sériot, em Langue et langue de bois en Pologne (Mots, Paris, outubro de 1986, nº 13: 181-189), podemos deixar de compreender e interpretar os fatos quando ficamos desorientados sobre a realidade. Quando as fontes de nossas informações e certezas se tornam pouco confiáveis ou parciais, passamos a aderir a fórmulas de discurso prontas.


"O resultado é a aparição de uma realidade ilusória, que só tem existência verbal e na qual a função poética assume o primeiro plano, pois as palavras não têm outro referencial senão elas mesmas", escreve Sériot.


Como reconhecer
Em francês, a langue de bois está associada a outras expressões, como rester de bois (ausência de reação), tête de bois (insensibilidade), gueule de bois (imbecilidade) e idoles de bois (falsidade), todas remetendo à incapacidade ou recusa de discutir, à abstenção e impertinência.


Vira ferramenta ideológica ao incluir argumentos imóveis, palavras-fetiche, estereótipos lexicais ou sintáticos, lugares-comuns, afirmações categóricas, falsas evidências, comparações vagas e contraverdades.


"A palavra é sistematizada, torna-se mecânica, caricatural, especializada, arquinormalizada, fria e sem pegada afetiva, dirigida a um auditório que jamais se sente incluído", escrevem Carmen Pineira-Tresmontant e Maurice Tournier, em De quel bois se chauffe-t-on? Origines et contextes actuels de l'expression langue de bois. (Mots, Paris, dezembro de 1989, nº 21: 5-19).


Com rigidez retórica e ausência de nuances, esse código prefabricado ganha preferência num meio de ideias flutuantes e resistente a compromissos duradouros.


Ao iludir pelo discurso inautêntico, a fala do político é sempre instrumental e visa um objetivo não declarado.


Insensibilização
O ruído que nada comunica tem como consequência pragmática a insensibilização, a percepção difusa de que todos os discursos são iguais, sem distinção. Ela seria capaz de minar o hábito de ouvir, a atenção e a concentração, formando pessoas que deixam de pensar a política como uma esfera de atuação em seu cotidiano.


"A novilíngua diminui a capacidade de compreensão dos falantes e barra a função principal da língua, que é a comunicação-informação. A língua torna-se um estoque lexical, um acervo de denominações, breve, uma nomenclatura feita de enunciados declarativos dos quais são ex-cluídos os parâmetros enunciativos e pragmáticos", escreve Sériot.


Artifícios
Na mesma linha, o historiador Christian Delporte define o conceito, em Uma história da 'langue de bois' (Une histoire de la langue de bois. De Lénine à Sarkozy. Paris: Flammarion, 2009), como "utilização voluntária de múltiplos artifícios de linguagem para dissimular o pensamento de um orador e influenciar ou controlar o de seu ouvinte".


A langue de bois teria surgido com a Revolução Francesa, que trouxe as multidões para a arena política. Um século e meio depois, com os regimes totalitários do século XX, a dimensão perversa da langue de bois atingiu limites monstruosos. A linguagem nazista impôs conceitos eugenistas e estigmatizou expressões. Já na Guerra Fria, norte-americanos e soviéticos esforçaram-se por fixar sentidos às palavras dentro de fórmulas estereotipadas, um discurso racionalizador, que permite afirmar sem justificar, ou um vocabulário litúrgico, de ataques raivosos a opositores.


Atualidade
Essa dimensão mortal da linguagem vaga se repetiu em Ruanda, nos massacres dos tútsis em 1994, com as sementes do ódio disseminadas via rádio, sempre de forma genérica, mas raivosa. Na política internacional contemporânea, tornou-se aceitável usar expressões eufêmicas como "fogo amigo" para omitir erros de operação, "danos colaterais" para destruição e mortes de civis, "pacificação" para ações militares unilaterais, ou a identificação entre "dissidentes", "subversivos" e "terroristas". Hoje, a vacuidade retórica invade os mais distintos campos.


"Todos os livros escolares nazifascistas utilizam um vocabulário empobrecido e uma sintaxe elementar, visando limitar os instrumentos para o raciocínio crítico e complexo. Mas devemos estar preparados para identificar outros tipos de novilíngua, mesmo que eles tomem a forma aparentemente inocente de um talk show popular", escreveu Umberto Eco para a The New York Review of Books em 1995.


A novilíngua do poder não está, afinal, só em campanhas eleitorais ou discursos políticos. Pode estar bem ao lado, esperando satisfazer preconceitos e interesses por meio da conversa mais inocentemente vaga e imprecisa.

Um radar para a enrolação

Algumas falácias retóricas que identificam um discurso político enrolador (J.L.)


Ignorar a questão concreta
- O senhor é contra ou a favor da volta da CPMF?


- Veja bem. A captação de recursos para a saúde... bla-bla-blá... e fiz mais pela saúde do que... bla-bla-blá... não se trata de onerar a carga tributária... bla-bla-blá...


Síndrome de Odorico
Usar eufemismos, circunlóquios e hipérboles, ao reduzir o impacto das palavras como se isso diminuísse o impacto da realidade adversa ou ao ampliar o efeito daquilo que favorece o enunciador:


"O Nordeste sofre de desconforto hídrico".


Fórmulas genéricas
Construções frasais imprecisas, com que todos concordam, mas nada especificam, como:


"A cidade precisa de saúde";


"O futuro do país depende da educação".


Criar reservas mentais
Assentir a literalidade da afirmação, mas violar-lhe o espírito.


Acusado de controlar um esquema de corrupção nos Correios, o então deputado Roberto Jefferson (foto, abaixo) acusou em 2005 a compra de apoio parlamentar pelo governo:


"José Dirceu dava aos deputados R$ 30 mil por mês. Não é absurdo? Você deixaria um camarada que rouba sair ileso?"


Dificilmente alguém discordaria da conclusão, pouco importa se a tese anterior estivesse demonstrada. É uma reserva mental, a não implicação lógica entre premissas e conclusão: o que é concluído pode ser verdadeiro, mas não pelos motivos alegados.


O julgamento do mensalão colocou José Dirceu no banco dos réus. Argumentos como o de Jefferson nem foram cogitados pelo Supremo Tribunal Federal. Não se sustentariam.  

 

Disputa de palavras

O vácuo no discurso político


Langue de bois
O neologismo chegou à França nos anos 70, via Polônia, onde se referia à "linguagem stalinista": dretwa mowa é a nudez voluntária do vocabulário, o uso de clichês dogmáticos sobre o primado da eficiência.


Novilíngua (newspeak)
O termo está em 1984, novela distópica de George Orwell (1949): é o idioma criado pelo governo IngSoc (English Socialism) para restringir o pensamento, pela alteração do sentido e exclusão de palavras. Com isso, a língua perde a capacidade de representar ideias.



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