Belmondo e Seberg em Acossado (1960): narrativa enxuta
O filme
Acossado (À Bout de Souffle, 1960), de Jean-Luc Godard, foi uma pequena revolução na linguagem do cinema.
Godard foi um dos diretores da época a propor uma narrativa mais enxuta, ágil. Mostrou Jean-Paul Belmondo num quarto de hotel, conversando ao telefone, e cortou para Belmondo caminhando pelas ruas.
O espectador dos anos 50 não estava acostumado a transição tão brusca. Era praxe mostrar os estágios intermediários: Belmondo ao telefone, vestindo o paletó, trancando a porta, descendo as escadas, chegando à rua. É sem dúvida uma maneira mais fluida de mostrar as ações, com transições mais suaves, quase imperceptíveis. Era assim que se narrava, mas Godard, artista jovem, estava buscando uma maneira diferente de dizer.
Comprimir a narrativa (em cinema, literatura, teatro, quadrinhos) envolve uma avaliação da parte do narrador. Que nível de familiaridade tem o público com esse modo de narrar? Está cansado de uma narrativa "mastigada" demais? Receberia com prazer a narração mais rápida? Preencheria por conta própria as lacunas, compreendendo sem muito esforço o que foi deixado de fora?
ImprevisívelA compressão serve às vezes só para simplificar a narrativa, mas pode provocar efeito estético, aumentando a imprevisibilidade (a "dificuldade") do texto para intensificar seu significado. Veja-se o parágrafo inicial do conto "A Loteria em Babilônia" de Jorge Luís Borges:
"Como todos os homens em Babilônia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se em meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth. Esta letra, nas noites de lua cheia, confere-me poder sobre os homens cuja marca é Ghimel, mas me sujeita aos de Aleph, que nas noites sem lua devem obediência aos de Ghimel.
No crepúsculo do amanhecer, num sótão, jugulei ante uma pedra negra touros sagrados. Durante um ano da lua, fui declarado invisível: gritava e não me respondiam, roubava o pão e não me decapitavam. Conheci o que ignoram os gregos: a incerteza. Numa câmara de bronze, diante do lenço silencioso do estrangulador, a esperança me foi fiel; no rio dos deleites, o pânico. Heráclides Pôntico refere com admiração que Pitágoras lembrava-se de ter sido Pirro e antes Euforbo e antes ainda algum outro mortal; para recordar vicissitudes análogas não preciso recorrer à morte, nem mesmo à impostura".
Quem lê o conto pela primeira vez acha a abertura desnorteante. Lido o conto e relida a abertura, ela fica clara. A Babilônia de Borges é país regido por uma companhia que promove uma loteria cujos prêmios são interferências na vida. Em vez de dinheiro, sorteiam-se destinos: o premiado deve praticar ações absurdas ou inexplicáveis, cometer crimes, integrar encenações coletivas. Relido, o parágrafo mostra a variedade de situações que um único homem pode experimentar por obra dos sorteios. Uma prosa comprimida ao máximo tende, em alguns casos, a aproximar-se da poesia, pois se torna justaposição de elementos díspares, deixando que as conexões sejam preenchidas pelo leitor.
RitmoA compressão narrativa produz grande efeito quando força o leitor a seguir o ritmo do autor, retardando ou acelerando esse ritmo. É famoso o interlúdio de Flaubert em Educação Sentimental. Ele faz o protagonista Frédéric Moreau testemunhar um episódio sangrento de um golpe de Estado. Encerra o capítulo e diz, abrindo o capítulo seguinte:
"Ele viajou.
Conheceu a melancolia dos barcos a vapor, o frio despertar na barraca, o tédio das paisagens e das ruínas, o amargor das amizades interrompidas.
Ele voltou. Frequentou a sociedade e teve outras amantes. Todavia a lembrança sempre presente da primeira as tornava insípidas; e ademais a violência do desejo, a própria flor do sentimento, se perdera".
Anos da vida do personagem são resumidos em poucas linhas, como se o autor dissesse que a única coisa importante que lhe sucedeu naquela época é o que vem nas linhas seguintes: o reencontro de Frédéric com a mulher que amara no passado.
DetalhesO conto "Sequência" de Guimarães Rosa (em Primeiras Estórias) conta a fuga de uma vaca ao voltar para a fazenda. Um rapaz a procura a cavalo. Ele a persegue, entretido com a "involuntária aventura", narrada com detalhes pitorescos, típicos de Rosa. Ao anoitecer, a vaca chega à fazenda, o rapaz atrás dela. Ele vê as luzes da casa grande, de Major Quitério. Apeia. Sobe a escada e é recebido, "bem-chegado".
"A uma roda de pessoas. Às quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? Da vaca, ele a ela diria: 'É sua.' Suas duas almas se transformavam? E tudo à razão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.
E a vaca-vitória, em seus ondes, por seus passos".
O conto se encerra comprimindo nesse parágrafo o encontro, a paixão à primeira vista, o casamento entre os jovens, conduzidos um ao outro pela vaca erradia. Rosa dilata o tempo da perseguição, aumentando o suspense por algo que não temos ideia do que será. E contrai o tempo futuro do casal em poucas linhas, aumentando o impacto do desfecho.
Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br