As muitas faces do "quê"
Por ser a palavra com mais funções, é preciso moderação para não tornar o texto áspero

Josué Machado

A palavra "que" pode ter várias funções morfológicas e sintáticas. Quanto à morfologia, que estuda as classes das palavras, pode ser substantivo, pronome, advérbio, conjunção, preposição e interjeição - seis das dez classes. Alguns sábios brincam ao dizer que "que" só não pode ser verbo. Exagero, claro. Ele também não funciona como artigo nem como numeral.

Quanto às funções sintáticas, pode ser sujeito, objeto direto ou indireto, predicativo do sujeito, adjunto adverbial, complemento nominal e agente da passiva. Palavra polivalente, portanto. Mas os autores cuidadosos evitam usá-lo, na mesma frase, pois o excesso de "quês" tende a tornar o texto duro e desarmonioso. Gustave Flaubert (1821-1880), por exemplo, autor de Madame Bovary, torturava-se por horas, às vezes dias, eliminando "quês", ecos, dissonâncias e palavras repetidas um tanto próximas.

O fato é que, quando se atravessa um texto com muitos "quês", tem-se a impressão de rodar numa carroça em paralelepípedos desalinhados. Há exemplos em algumas frases propositadamente "quesudas" mais abaixo. Convém lembrar que "que" usado isoladamente ou no fim da frase é acentuado, o que demonstra a pronúncia fechada do e e a tonicidade assumida por essa vogal em tais posições:

A ministra tem medo de quê?
É acentuado também o nome da letra:
O quê é a décima sétima letra do nosso alfabeto.

Funções morfológicas do QUÊ.

1 Que substantivo. Tem o sentido de "alguma coisa", "que coisa". É sempre acentuado nessa função, em que aparece modificado por artigo, pronome adjetivo ou numeral. É a única função em que pode ter plural.

O presidente disse a ele não sei QUÊ que o fez mudar o voto.
O senador Suplicy tem um QUê de alienígena que chegou depois.
Os QUÊS tornam o texto áspero como a alma dos políticos.

2 Que interjeição. Como toda interjeição, exprime sentimento, emoção. Nessa função, é sempre exclamativo e acentuado.

QUÊ! Ele ainda não recebeu o aumento?
QUÊ! A Justiça livrou o Palocci?
QUÊ! A Câmara Federal trabalha para criar mais 7.500 vagas para vereadores!
Pode ser antecedido de artigo:
O QUÊ! Espero que não demore para terminar o trabalho.

3 Que preposição. Equivale a "de" ou "para" e integra uma locução verbal com os verbos auxiliares "ter" e "haver". Em tais locuções, alguns sábios consideram impróprio o já amplamente difundido uso de "que" em lugar de "de".

Todos hão QUE fazer o melhor que podem.
Tenho QUE escrever com a maior clareza possível.
Os senadores têm pouco QUE fazer no plenário.
Os políticos não têm muito QUE fazer para ganhar a vida.

4 Que advérbio. Funciona como reforço de adjetivo e, mais raramente, de advérbio; equivale aproximadamente a "quão" e "quanto".

QUE belos tempos passamos juntos!
QUE honrados foram aqueles senadores!
QUE longe ficou meu sonho de felicidade...
"Belos" e "honrados" são adjetivos; "longe", advérbio.

5 Que partícula de realce. Também chamado de partícula expletiva, serve apenas como realce, por isso pode ser suprimido sem que o sentido da oração se modifique. Também aparece com o verbo ser na locução "é que".

Qual QUE é a sua?
"Oh, que saudade QUE eu tenho..." (Casimiro de Abreu, "Meus oito anos".)
Os políticos É QUE sabem viver.

6 Que pronome adjetivo. Modifica o substantivo ao lado do qual aparece.

QUE peito teve o Mercadante!
QUE atitude admirável a dos senadores!

"Infância, QUE sorte cega,
QUE ventania cruel,
QUE enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?"
(Versos do poema Coração, de Guilherme de Almeida.)

7 Que pronome interrogativo. Ocorre em orações interrogativas com o significado de "que coisa". Alguns sábios classificam tais pronomes como indefinidos, embora inseridos em frases interrogativas. Isso porque são pronomes de significação imprecisa, característica dos indefinidos.

QUE importa a sua renúncia se só faz o que lhe mandam fazer?
QUE espera que eu faça?
QUE dia é hoje?

Pode ser reforçado por "O":
O QUE espera que eu faça?

8 Que pronome relativo. Refere-se a um termo antecedente (grifado nos exemplos abaixo), projetando-o na oração seguinte, chamada adjetiva.
É o caso em que pode ser substituído por "o qual", "a qual", "os quais", "as quais".

A mão QUE afaga é a mão QUE apedreja.
(Liberdade com o verso "A mão que afaga é a mesma que apedreja", em Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos.)

Tenho saudade da criança QUE fui.
O candidato QUE ofendeu Sarney é o presidente QUE o salvou.
O homem, QUE é mortal, começa a morrer quando nasce.

9 Que conjunção. Relaciona duas orações e se classifica de acordo com a oração que inicia.

A) Coordenativa. Introduz orações coordenadas.
- Aditiva: Falam QUE falam e nada resolvem.
- Alternativa: Desista QUE não desista, tanto faz.
- Explicativa: Nana, neném, QUE a cuca vem pegar. Choveu, QUE o chão está molhado. (= porque.)
- Adversativa: Esperava que outro, QUE não meu amigo, fizesse aquilo.

B) Subordinativa adverbial. Introduz orações subordinadas adverbiais.
- Causal: Não espere QUE eu não vou.
- Temporal: Aberta QUE foi a sessão, ele pediu o arquivamento do processo.
- Final: Faltou muito QUE o Bigodão fosse cassado. (Que = para que.)
- Comparativa: Mostrou-se mais fraco QUE ela. (Ou: do que ela.)
- Condicional: Não foi ela, mas, QUE fosse, seria premiada.
- Consecutiva: O governo esforçou-se tanto QUE o livrou da cassação.
- Concessiva: Por muito QUE se explique, não convence.

C) Subordinativa integrante. Introduz orações subordinadas substantivas.
- Subjetiva: É preciso QUE soframos para entender o amor.
- Objetiva direta: O estudo de sua trajetória revela QUE ele sempre oscilou.
- Objetiva indireta: Tenho esperança de QUE ele pague pelas picaretagens cometidas. Ainda me lembro de QUE a amei demais.
- Completiva nominal: Fiquei com a certeza de QUE ele só foi valente com a Lina. Tive receio de QUE ela fugisse.
- Predicativa: A verdade é QUE eles não ligam para a ética. Esse papo parece QUE não vai dar em nada.
- Apositiva: Ele tem um sonho: QUE a tia mal-humorada seja eleita.


A preposição que faz falta

É comum, mesmo em textos ambiciosos, a omissão indevida da preposição antes do pronome relativo "que", que funciona como objeto indireto, adjunto adverbial, agente da passiva e complemento nominal.

Em vez de: "É algo de que poucos se lembram: viemos ao mundo para sofrer", escrevem: "É algo que poucos se lembram: viemos ao mundo para sofrer".

Em vez de: "Esperou a hora em que ela se distraiu para avançar", escrevem: "Esperou a hora que ela se distraiu para avançar".

Em vez de: "O homem por que foi atacada recebeu castigo", escrevem: "O homem que foi atacada recebeu castigo".

Em vez de: "A votação a que você fez referência foi viciada, escrevem: "A votação que você fez referência foi viciada".


Funções sintáticas do QUÊ.

Ao funcionar como pronome relativo, QUE pode assumir vários papéis sintáticos.

1 Sujeito:
Percebi então a mulher magoada QUE detestava o marido.
QUE é sujeito do verbo detestar.
Ele é o homem poderoso QUE lesou o caseiro.
QUE é sujeito de lesar.

2 Objeto direto:
Ele era o marido incompreendido QUE ela detestava.
QUE é objeto direto do verbo detestar.
Cometeu um erro tolo QUE ela não perdoou.
QUE é objeto direto de perdoar.
"Lá tenho a mulher QUE eu quero/Na cama QUE escolherei" (Manuel Bandeira, falando de Pasárgada, lugar que evoca o Congresso brasileiro para quem é amigo do rei.)
QUE é objeto direto de querer e escolher.

3 Objeto indireto:
É algo de QUE poucos se lembram: viemos a este mundo para sofrer.
QUE é objeto indireto do verbo lembrar-se.

4 Adjunto adverbial:
Esperou a hora em QUE ela se distraiu para avançar.
QUE é adjunto adverbial do verbo distrair.

5 Agente da passiva:
O homem por QUE foi atacada recebeu o castigo merecido.
QUE substitui "homem", agente da passiva.

6 Predicativo do sujeito:
Sou o QUE sou.
Gostaria de voltar a ser a criança QUE fui.
QUE é predicativo do sujeito oculto "eu".

7 Complemento nominal:
A votação a QUE você fez referência foi viciada.
QUE é complemento nominal de referência.

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