Criada no início do século 20 como reação intelectual ao estrangeirismo football, a palavra "ludopédio" jamais ganhou de "futebol" no corpo a corpo da linguagem brasileira. Se depender da nova edição do dicionário Houaiss, o neologismo sairá definitivamente pela linha de fundo. A palavra foi chutada da nova versão da obra, um calhamaço com mais de 146 mil entradas adaptadas ao novo acordo ortográfico, que acaba de chegar às livrarias.
A palavra não vai só. Adequar a edição à nova lei ortográfica foi o pretexto que faltava à editora Objetiva para criar uma edição comercialmente mais viável, sem que a "lipoaspiração" de verbetes comprometesse a imagem do produto. Mesmo com 93% mais caracteres que o
Aurélio, o
Grande Dicionário Houaiss custava quase o dobro do concorrente, desde que foi lançado em 2001. Além do uso de papel-bíblia de alto desempenho e leveza, a redução de 82 mil entradas limou quase mil páginas da obra (de 2.922 passaram a 2.048). A nova edição ganhou, assim, competitividade: entre os dois grandes, os volumes e preços, agora, se equiparam (R$ 260 do Aurélio ante R$ 250 do novo Houaiss).
Além de arcaísmos como "ludopédio", no entanto, perderam-se muitos dos dialetismos lusófonos, palavras dos crioulos orientais e africanos, que faziam do dicionário original uma charmosa síntese da lusofonia.
- A nomenclatura do novo dicionário sofreu cortes necessários em relação às entradas do Grande, para que seu volume pudesse ser menor do que o daquele, e o critério empregado para que tal meta fosse atingida com eficiência foi o cômputo percentual de emprego das palavras na língua - diz Mauro Salles Villar, diretor do Instituto Antônio Houaiss (IAH).
Menos etimologiaVillar comenta que o novo dicionário continua a registrar os verbetes de prefixos, sufixos e terminações verbais, mas agora de forma mais concisa. As datas de ingresso das palavras no idioma continuam, mas sem a citação da fonte, como na versão de 2001. Já elementos como vogais, consoantes de ligação e desinência foram retiradas da obra, agora pertencendo só à versão CD-ROM, que acompanha o volume impresso. Resumiram-se nele, também, as etimologias, "embora seu núcleo básico haja sido mantido com rigor", acrescenta Villar. Devido à redução do tamanho da obra, houve também alteração na sua classificação.
- Este dicionário que acabamos de lançar preenche um hiato na família dos dicionários Houaiss, por se situar, quanto à sua extensão, entre o Grande, que conta com mais de 228 mil entradas, e o Minidicionário, com mais de 30 mil palavras e locuções - diz Villar.
Entre os dialetismos reeditados, algumas palavras, como "paragem", receberam cortes não lexicais, mas semânticos. O novo verbete indica "região marítima alcançável pela navegação; ato ou efeito de parar; lugar em que se para; parada; lugar onde algo ou alguém pode ser encontrado". A atual versão do dicionário deixou de fora um complemento à definição, contida na edição de 2001 mas talvez incompreensível a muitos leitores brasileiros.
Pois "paragem" também pode ser, como definiu o Grande Houaiss, "local de parada de ônibus, táxi, bonde, ponto". A acepção não cabe ao Brasil, mas a Portugal, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Angola e Moçambique, países que receberam aquela versão do dicionário, e, por isso, tiveram seus vocábulos incluídos. Diferentemente da recém-lançada, o objetivo da edição anterior "era ser tão ecumenicamente lusofônica quanto possível", define Villar.
Acordo
Também embalada pelo novo acordo ortográfico, a 4ª edição do
Novo Dicionário Aurélio, ou
Aurelião, chegou às livrarias no fim de agosto. A obra da editora Positivo tem 873 verbetes a menos do que a publicação anterior.
Como o foco dessa edição é a nova ortografia, as supressões feitas estão relacionadas diretamente a ela, explica a assessoria da Positivo. Foram revisados os lusitanismos e outras atualizações, como palavras com trema que possuíam duas entradas, como em "liquido".
Mesmo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) em mãos, as dúvidas e indefinições foram suficientemente grandes para fazer com que o lançamento do dicionário atrasasse.
- No início de julho, a Academia Brasileira de Letras lançou uma errata, consolidando o Volp. Então, nós decidimos esperar e, por isso, só conseguimos lançar [o dicionário] agora - justifica Emerson Santos, diretor-geral da Positivo.
Embora não compense a quantidade de excluídos, 572 novos verbetes foram inseridos na 4ª edição do Aurélio. Muitos remetem a acepções com sentido mais atual, como é o caso do verbo "zapear", cuja referência de uso dada pelo dicionário é de um ano atrás: "Nas noites olímpicas, eu não parava de zapear entre os canais de notícias (...) e os canais de esporte" (Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo, 28.08.2008).
InserçõesEnquanto o Houaiss e o Aurélio fizeram uma limpeza lexical, outros dicionários optaram pelo oposto. O
Caldas Aulete, da Lexikon, por estar disponível só na web, trabalha com propostas diferentes. Uma é não limitação de espaço.
- Queremos ter um dicionário que possa ir ao infinito, sem aumento de custo, e que seja permanentemente atualizado - explica o editor Paulo Geiger.
Na sua versão para
download ou de acesso direto em rede (iAulete), o dicionário é atualizado com mais frequência e menos esforço, contando até com sugestões dos usuários. Inserção de novos vocábulos e processos de revisão são feitos a cada três meses, embora a meta, como reitera Geiger, seja tornar tal prática mensal. Ela só não é mais assídua porque:
- A dinâmica da língua não é tão grande assim, a língua não se renova com essa velocidade. Por isso, a inserção de palavras novas é uma coisa mais lenta. Mas, dependendo da área, como na política, elas aparecem o tempo todo, enriquecendo o vocabulário - acrescenta o editor.
NeologismosAssim ocorreu com o recém-incluído "mensalão", neologismo criado pelo deputado Roberto Jefferson, que caiu nas graças da imprensa e da população, mas não de todos os dicionários, ainda. No Aulete, além de expressões referentes a uma área, há as que remetem a uma faixa etária específica. É o caso das gírias, palavras de uso informal, utilizadas, majoritariamente, por jovens e adolescentes. Um exemplo é "demorô/demorou", que se gramaticalizou e, de verbo, passou a "expressão usada para demonstrar concordância ou satisfação (por vezes entusiástica) com o que foi dito ou perguntado pelo interlocutor".
Por mais que uma obra de referência virtual facilite essa vivacidade do idioma, a editora do Aulete não descarta o lançamento de um dicionário em formato grande e com impressão em papel-bíblia, por ter sido esse o modelo da obra até a década de 80, quando parou de ser publicada em papel. O retorno, no entanto, ainda não tem previsão.
- Vamos publicá-lo um dia, muito provavelmente. Nós só não queremos entrar num ambiente que ainda não definiu o modelo de dicionário de que o Brasil precisa - explica Geiger.
AtualidadeVocábulos de denotação mais recente também fazem parte do corpus do recém-lançado Minidicionário da Língua Portuguesa Evanildo Bechara (Nova Fronteira). Dentre eles, encontram-se "biogás", "bioética", "biossegurança", "pré-sal" e "portabilidade", que se encaixam na proposta da obra, segundo as palavras do próprio Bechara:
- A partir da nominata [Lista de palavras e nomes] da editora Nova Fronteira, nós extraímos as palavras que mais de perto estavam não só no horizonte cultural, mas no de vivência do cotidiano para os quais o minidicionário é indicado, quer dizer, para os alunos que frequentam os ensinos fundamental e médio - explica Bechara.
O dicionário chega às livrarias poucos meses após o Volp, no qual Bechara atua como editor e membro da ABL. Por isso a responsabilidade de que a obra esteja atualizada conforme as normas do Acordo e da errata. Mas, segundo ele, para este seu primeiro dicionário, "o acordo ortográfico entra em segundo plano". O objetivo maior é disponibilizar uma obra de referência mais cômoda em todos os sentidos, reitera o gramático.
Complicações
Dentro do mesmo porte e com uma quantidade semelhante de vocábulos, a editora Larousse também lançou o seu minidicionário. A 1ª edição da obra, que, antecipando-se ao próprio Volp, saiu no segundo semestre de 2008, alterou apenas hifens e acentos em prefixos. A editora aceitou o risco do erro - e teve de assumi-lo quando ele ocorreu.
- Tiramos o acento da palavra "ideia" em todas as definições e exemplos, mas escapou logo na entrada do verbete. Descobrimos quando os leitores ligaram para o atendimento, com toda razão - relembra a lexicógrafa Thereza Pozzoli, uma das responsáveis pelos trabalhos com dicionários da Larousse, Global, Barsa Planeta, Rideel e outras.
A nova edição do Larousse saiu em 2009 com 893 verbetes a mais que a anterior. Uma das razões desse crescimento, diz Thereza, foi o controle de vocabulário feito pela editora, garantindo que todos os vocábulos usados nas definições tenham, por sua vez, uma definição em seu próprio verbete.
- Se na definição de "canguru" há o vocábulo "marsúpio", este precisa estar no dicionário - explica.
VolumeNeologismos e vocábulos que já existiam, mas não haviam sido inseridos, contribuíram para engrossar o volume. Outro fator que ocasionou variação foi, novamente, a questão do hífen, como observa a lexicógrafa.
- O tamanho médio do verbete subiu por causa da retirada do hífen em "bumba meu boi", "cabo de guerra", "ponto e vírgula", "mão de obra": essas formas tinham entrada própria na edição de 2008, mas na de 2009 ficam dentro de outros verbetes, para seguir o padrão da obra e do projeto lexicográfico.
Na mesma época da 1ª edição do Larousse, foi lançado o Michaelis Dicionário Escolar Língua Portuguesa, da Melhoramentos, que seguiu o texto oficial do acordo. A história se repetiu mais uma vez: com a publicação do Volp e da errata da Academia, a obra sofreu modificações em 2009, restritas às reformulações gramaticais - a obra já estaria "atualizada e adequada ao seu público alvo", como esclarece a editora do Michaelis, Rosana Trevisan. O próximo passo da Melhoramentos é finalizar a construção do Michaelis Dicionário Prático Língua Portuguesa.
Dicionário-to-goEm maio, a Melhoramentos lançou o único dicionário brasileiro para iPhone e iPod Touch. A versão concisa da obra está disponível na íntegra para os usuários dos aparelhos, que tornam possível que uma palavra seja consultada pelo seu início, meio ou fim. Além disso, o modelo reconhece os vocábulos escritos na forma antiga da ortografia, corrigindo-os automaticamente.
Os dicionários na sua versão eletrônica também trabalham dessa forma. É o caso do
Houaiss, Aurelião, Michaelis e Larousse, que além da versão em papel, também existem em CD-ROM. Portáteis, garantem facilidade de busca dos verbetes.
Seja qual for a forma de apresentação de um dicionário, digital ou em papel, devem convergir na qualidade - fruto de constantes processos de revisão, atualização e, até mesmo, ponderação. Afinal, observa Bechara, um dicionário não pode ser nunca um "cemitério de palavras que não se usam, como também não pode registrar todas as riquezas vocabulares que uma língua viva apresenta".
- Quase todo dia aparece um termo novo que pode ficar só no momento, mas que também pode ser aceito pela generosidade das pessoas - diz o gramático.
Generosidade com a qual palavras como "ludopédio", por exemplo, não puderam contar.
Novas palavras dos dicionários |
Os termos que entraram em edições atualizadas de obras de referência |
Dicionario
| Acréscimo |
| AURÉLIO | GPS, marionetista, monozigótico, multi-instrumentista, nanopartícula, plurirracial, pseudossufixo, psico-história, psicorrigidez, resveratrol, supramolecular, zapear |
| CALDAS AULETE | ambigrama, cadeirante, mensalão, mensaleiro, propinoduto, metrossexual, imagear, drumete, irado (muito bom, legal), demorô/demorou (como expressão, no verbete "demorar"), naite, balada (programa noturno), golfinhada, paraolímpico, spam, techno (gênero de música) |
| LAROUSSE | desculpável, iconógrafo, neurocientista, oncologista, afrodescendente, aramado, célula-tronco, catador, mp3, nanomaterial, nanotecnologia, planeta-anão, plugado, vale-tudo |
| BECHARA | biogás, biocombustível, bioética, biossegurança, equiterapia, GPS, pré-sal, portabilidade, sustentabilidade |