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| Seringueiro no Acre: fórum da "acreanidade", com "e" e não com "i", como manda a lei ortográfica. (Foto: Alan Marques/Folha Imagem) |
O novo acordo ortográfico gerou reclamações dos dois lados do Atlântico. Mas no Acre a grita vai muito além dos muxoxos com as mudanças de escrita. A sociedade local abriu fogo contra a regra que estabelece o uso do adjetivo gentílico "acriano" no lugar do habitual "acreano".
- Essa mudança mexe com o nosso sentimento. É como o nosso nome de batismo ser escrito errado - compara a deputada federal Perpétua Almeida (PC do B-AC), uma das articuladoras do movimento "Fórum de defesa da nossa acreanidade".
Segundo a parlamentar, a alteração extrapola a questão da grafia.
- Tem a ver com nossa cultura, identidade, as nossas raízes. Faz parte da história de um povo que pegou em armas para se tornar brasileiro.
Ela conta que o governo estadual e a Assembleia Legislativa mantiveram o e no gentílico. Já os meios de comunicação estão divididos.
- Parte da imprensa se preocupa com o escrever errado ou com a força da obrigatoriedade. Mas o jornal mais antigo, por exemplo, não adotou. Na sociedade, há algum sentimento de "vamos deixar pra lá, não vai pegar". Mas, se aparecer uma questão [referente ao gentílico] em vestibular ou concurso, como ficamos?
Uma comitiva do estado promete procurar a Academia Brasileira de Letras para defender a manutenção da grafia "acreano". A argumentação será sustentada num levantamento histórico feito pela Academia Acreana de Letras. Perpétua considera plausível que a ABL aceite a reivindicação.
- O correto é aquilo que se tornou raiz, que se tornou cultura.
Mas, em caso de negativa, a deputada diz que o passo seguinte será ouvir a opinião da sociedade para analisar o recurso cabível.
A questão pode prolongar-se antes de um desfecho. Pois, à luz da linguística, não há o que fazer, aponta o gramático e filólogo Evanildo Bechara, membro da ABL. Ele explica que, pela regra, "acriano" se encaixa nos casos de "açoriano", "camoniano", "ciceroniano".
- Isso faz parte da evolução da análise morfológica da palavra. É um processo de aperfeiçoamento da língua. Essa regra não foi feita para prejudicar ou tirar o sossego dos acrianos - diz Bechara.
Sem exceção
Bechara afirma que "o povo é soberano", mas observa:
- Se quiserem respeitar as regras da língua, terão de escrever seu gentílico com i. Porém, se decidirem pela outra forma, é um direito que assiste à comunidade.
Para o filólogo, insistir na forma tradicional seria equivalente a escrever "Brasil" com z, Paraíba com h para evidenciar o hiato ou referir-se à capital pernambucana como "Arrecife". Ainda que o uso de "acreano" seja recorrente, o acadêmico não cogita a possibilidade de se criar uma exceção para o uso dessa forma.
- Não seria o caso de exceção porque a explicação não é linguística, a explicação é de natureza sentimental.
Quanto à mobilização dos intelectuais do Acre, Bechara considera que a ABL não é o órgão a ser procurado para a reivindicação. Segundo ele, o gentílico está umbilicalmente ligado ao topônimo (referente à nação, estado, cidade). Logo, o estabelecimento da forma deve ser da alçada de instituições técnicas e científicas da área da geografia, como o IBGE, a Sociedade Brasileira de Geografia ou o Itamaraty. A ABL, para Bechara, deveria ser consultada numa segunda instância.
- O IBGE define o nome do estado, da cidade e o gentílico. Se é espírito-santense ou capixaba, isso não é problema da ABL. Mas ela vai dizer se "barriga-verde" tem hífen ou não. A opinião da Academia é restrita à língua. No caso do Acre, a ABL vai dizer que o gentílico, de acordo com a ciência linguística, e não com a tradição, deve ser escrito com i.
A polêmica que envolve a grafia de quem nasceu no Acre ilustra um assunto que, se não chega a ser espinhoso, suscita dúvidas. Senão, vejamos:
Cena 1: Um jogador de futebol se disse contente por estar se transferindo para o futebol "catarinense". Mas ele estava de partida para o Catar, cidade da península arábica onde vivem os "catarenses", e não para Santa Catarina.
Cena 2: Um cronista esportivo comentava um amistoso que a seleção brasileira faria em Cingapura. Ao falar sobre o que o torcedor local esperava do jogo, pediu ajuda:
- Quem nasce em Cingapura é...?
- Cingapuriano - socorreu o apresentador.
Bola dentro, apesar de alguns pensarem que o correto fosse "cingalês", que, na realidade, se refere a quem é do Sri Lanka, antigo Ceilão.
Encrenca
O fato é que nem sempre é possível aplicar uma regra para encontrar a forma correta. Por que quem nasce no Canadá é "canadense" e quem nasce no Panamá é "panamenho"? Por que "pernambucano" e não "pernambuquense"?
Há vários fatores que determinam a adoção de uma forma em vez de outra. Muitos estudiosos reconhecem que o princípio é de fácil compreensão. Mas os motivos para que uma forma se estabeleça é que dão pano para manga.
Professor de língua portuguesa da ECA/USP e coordenador de português do Anglo Vestibulares, Francisco Platão Savioli explica que os gentílicos são formados a partir do radical do lugar (nação, cidade, estado, um topônimo) mais um sufixo. Como o sufixo é variável, é nesse ponto que começa a encrenca.
- De cidades é um Deus nos acuda. Na minha terra, São Simão (SP), pela regra, eu teria liberdade de pegar o radical e acrescentar são-simonense, simonense, simoniano, simoneiro. Quem nasce lá é "simonense". Mas quem decretou isso?
Pistas
A professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp de Araraquara, lista considerações que dariam pistas de um condicionamento na adoção de tais sufixos, vinculado à forma:
- Por exemplo, grande parte dos etnônimos terminados em -ano refere-se a nomes de lugares terminados em a: americano, africano, angolano, baiano, curitibano, paraibano, romano, tanzaniano. Mas não se estende o raciocínio para formas como aguedense, bracarense, leiriense (Portugal). Também favorece a adoção desse sufixo -ano (cujo a é nasal) a terminação em a nasal de nomes de lugares (Irã: iraniano). Ainda parecem favorecer esse sufixo os finais de palavra com consoante travadora de sílaba: kuaitiano; iraquiano. Entretanto, isso é muito pouco como regra: são das mais diversas formas os antropônimos que deram origem a adjetivos (alagoano, sergipano, peruano, pernambucano etc.)
Para Platão, uma hipótese plausível seria evitar a homonímia: caso da adoção de "brasiliense" para o nativo de Brasília diferenciar-se de "brasileiro". Outra possibilidade seria a busca de eufonia:
- Para encontrar a versão mais sonora, acoplam-se radical e sufixo mais de acordo com a fonologia da língua - diz Platão, para quem muitos gentílicos também podem originar-se de uma prática ou de um símbolo característico de uma região.
Ele observa que as origens podem vir de várias fontes. O oriundo do Rio Grande do Norte derivou "potiguar" do tupi poti'war (comedor de camarão). E o cidadão ou habitante do Estado do Rio de Janeiro, "fluminense", tem o adjetivo gentílico originado do latim: o radical é fluminen (rio). Quem é da capital da Bahia pode ser chamado de "soteropolitano", que vem do grego: polites é "cidadão" e sotero é "Salvador". Cidadão de salvador [o termo "salvadorense" também é usado].
Combinações
Nilsa Areán-Garcia, estudiosa de sufixos e integrante do Grupo de Morfologia Histórica do Português, da USP, analisa as motivações mais comuns para que uma forma seja preferida em relação à outra.
- A prosódia
Para Nilsa, os nomes que rompem com a harmonia melódica da prosódia são impopulares.
- Há "brasileiro" e "brasílico". Ambos já designaram os nascidos no Brasil, e um motivo para que "brasileiro" tenha prevalecido é que as proparoxítonas rompem a melodiosa prosódia do português e não promovem a melhor acomodação à fala.
- A fonética
A repetição de sons parecidos e seguidos na mesma palavra parece contrariar princípios de eufonia.
- A palavra para designar o povo do Minho [Portugal] dificilmente será formada com o sufixo -enho, pois "minhenho" não parece ser estético em português devido à sucessão dos sons promovidos por nh. Assim, parece haver sufixos que se acomodam foneticamente melhor que outros a certas bases toponímicas.
O -enho é muito usado em gentílicos que tenham relação com a língua espanhola. Daí "panamenho", "salvadorenho", "porto-riquenho".
- A divulgação
Nilsa diz que muitas vezes há mais de uma designação para uma população, mas uma das formas prevalece, entre outros motivos, pela divulgação não só oral como escrita.
- Hoje, pela mídia, há diretrizes para a divulgação dos nomes gentílicos ou pátrios. Ao se referir aos nativos do Paraná, a mídia dissemina a forma "paranaense" e usa "paranista" para os torcedores de futebol do Paraná, deixando a forma "tingui" só para o dicionário, ainda que as três formas possam ser usadas.
- Evitar repetições
Se já há forma disseminada, outros povos optam por alternativas.
- O fato de já existir, desde 1835, a forma "são-felicense", para designar
os de São Félix de Balsas (MA), fez com que em 1857 se optasse por "são-felista" para os de São Félix (BA) e, em 1989, "são-felence" ou "sanfelicense" para os de São Félix do Coribe (BA). Nem sempre isso ocorre, pois "são-felicense" designa os de São Félix do Piauí (1954) e os de São Félix do Xingu no Pará (1961).
Pelo confronto de argumentos e pelas práticas que permitem variações de sufixos, o terreno dos gentílicos é escorregadio. Ficar na dúvida é parte do jogo do aprendizado. Por isso, leitura e sensibilidade fonética ajudam a tornar a relação com gentílicos mais gentil do que sugere a queda de braço entre ABL e Acre.
Os sufixos dos gentílicos |
Para a professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp, os sufixos mais produtivos na formação dos gentílicos se prestam a outras funções no idioma corrente.
- Os gentílicos são adjetivos "de relação". Os mesmos sufixos que são produtivos para formar esses adjetivos são usados para formar adjetivos que fazem outros tipos de "relação" semântica. - Por exemplo: o sufixo -eir(o), do latim -ariu, indica profissão (pedreiro, cervejeiro, costureiro), mas há etnônimos que se originaram dessa relação semântica: mineiro, brasileiro (são, portanto, semanticamente motivados). - O sufixo -an(o) (peruano, angolano, iraniano), do latim -anu, é produtivo em adjetivos que exprimem relação com pessoas (byroniano, camiliano, camoniano, chapliniano, freudiano, queirosiano) ou instituições / correntes (muçulmano, presbiteriano, parnasiano). - O sufixo -ic(o) átono (brasílico, balcânico, itálico, céltico, nórdico, prússico, selenítico), do grego -ikos (pouco produtivo na indicação étnica, embora haja etnônimos já formados), é outro que entra na formação de adjetivos que exprimem relação com pessoas (edípico, fáustico, narcísico) ou instituições / correntes (autárquico, monárquico, sofístico, anárquico). - O sufixo -ense (amazonense, brasiliense, recifense), do latim -ensis (genuíno formador de etnônimos) é pouco produtivo para expressar outras relações. Mas é achado em termos como "forense".
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Origem nativa |
Muitos gentilicos originam-se de uma prática ou de um símbolo regional |
Potiguar O Rio Grande do Norte derivou "potiguar" do tupi poti'war (comedor de camarão). | Fluminense O Rio de Janeiro fisgou "fluminense" do radical latino flumien (rio). | Soteropolitano A bahia tirou do grego o termo "soteropolitano" (cidadão de salvador). |
O que diz a regra |
No atual Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o gentílico "acriano" aparece como um exemplo do uso do sufixo -iano., no artigo 2o (e seu inciso c) da base V (Das vogais átonas). "Sendo muito variadas as condições etimológicas e histórico-fonéticas em que se fixam graficamente e e i ou o e u em sílaba átona, é evidente que só a consulta dos vocabulários ou dicionários pode indicar, muitas vezes, se deve empregar-se e ou i, se o ou u. Há, todavia, alguns casos em que o uso dessas vogais pode ser facilmente sistematizado. Convém fixar os seguintes (...): c) Escrevem-se com i, e não com e, antes da sílaba tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)]". |