Quando quer enfatizar a importância do contexto para o entendimento de uma frase, o gramático Evanildo Bechara ri ao citar de memória uma manchete que o marcou em 1967. O cantor Sérgio Ricardo, ante as vaias no III Festival de Música Brasileira, da TV Record, despedaçara o próprio violão na plateia que ouvia Beto Bom de Bola.
"Violada em pleno auditório", manchetou o Notícias Populares.
Pertencente ao respeitável grupo Folha, que edita Folha de S. Paulo, o hoje extinto NP por muito tempo representou uma escola de sensacionalismo que parece nem existir mais nas bancas. Mas a prática linguística de imprimir humor à informação, ah, essa anda viva como nunca.
Que o diga o tabloide Meia Hora, irmão popularesco do carioca O Dia, ao noticiar em 14 de novembro que a Rede Globo afastara o protagonista da novela Negócio da China por dependência de cocaína:
"Fábio Assunção dá um tempo na carreira".
Ou a chamada de capa de seu conterrâneo Extra, do conglomerado da Globo, que há um ano noticiou a entrega do cargo de Fidel Castro ao irmão, com a foto do líder cubano em posição de vertigem:
"Fidel chama o Raúl".
Títulos da imprensa, como esses, afagam a ambiguidade semântica e a malícia discursiva da população. "Carreira", no caso, permuta os sentidos "trajetória profissional" e "fileira de pó aspirada por usuários de cocaína". Já "chama o Raúl" simula uma convocação, mas mira mesmo é na onomatopeia que descreve a náusea dos embriagados.
Dado em casa
Parece até mandinga dos criadores de manchetes, loucos para desenterrar os mais infames joguinhos de palavras da adolescência. Mas caiu no colo do editor-executivo Henrique Freitas o comentário por e-mail do editor Humberto Tziolas sobre o rompimento do noivado da atriz Luana Piovani com Dado Dolabela.
E assim, "Luana não tem mais Dado em casa" virou a manchete do Meia Hora, em 29 de outubro, com a foto do ator no lugar do nome próprio.
A bola quicou também para o jornal chutar, na mesma capa, a notícia de um ensaio erótico com o ator Iran Malfitano, o Orlandinho, personagem gay da novela A Favorita, da Globo. A história recebeu o fofo título "Orlandinho pode posar peladinho". A pimenta foi reservada à linha fina que antecipa a história: "Vai mostrar o Orlandão".
Não é casual que celebridades da TV e fatos de apelo virem matéria cômica da imprensa popular, à falta de melhor expressão para o segmento popular da grande imprensa industrial. Ana Rosa Ferreira Dias, professora de língua portuguesa e filologia da PUC e da USP, autora de O discurso da violência - as marcas da oralidade no jornalismo popular (Cortez, 2008, 3a edição), afirma que as informações nessa imprensa buscam proximidade com o cotidiano do leitor, sua linguagem e seu estado de humor.
- Jornais populares sobrevivem de fait divers, os fatos do cotidiano sem relevância especial, mas que são transformados em notícias. O humor vem como possibilidade de o leitor suportar a própria dor do cotidiano. Essa possibilidade se dá por meio da língua, quando o veículo usa metáforas humorísticas, trocadilhos e jogos de palavras - afirma Ana.
Jogos de linguagem
O jornalista Silio Boccanera costuma dizer que todo mundo tem sua manchete de escândalo favorita. A dele é a do travesti brasileiro que morreu em Paris e foi cremado na França. A pedido da família, as cinzas foram para o Brasil:
"Bicha em pó regressa à terra natal", disparou um jornal popular.
Ironias como essa flertam o humor negro, como fez o Meia Hora ao noticiar a overdose de cocaína que em 12 de dezembro matou Marcelo Silva, o ex-marido da atriz Suzana Vieira:
"Do pó vieste, pelo pó passaste, ao pó voltarás".
Houve época em que os jornais não só arriscavam esse tom pesado de piada como inventavam bizarrias sexuais e seres como bebês-diabos. Veículos como Tribuna do Paraná e os cariocas O Povo e A Notícia especulavam com o espetáculo do horror cotidiano. Dirigido por Jaguar, o mesmo de O Pasquim, A Notícia carregava no humor sensacionalista, revezando na mesma edição manchetes que eram pura balela, como "Devoraram o defunto no ritual de magia" (21/10/1992), a textos humorados sobre corpos reais estendidos no chão, com legendas como "O cara ficou mais furado que tampa de saleiro de bar".
Bruno Tyschler, diretor do núcleo de jornais populares do grupo Globo, que inclui Extra, Expresso da Notícia e Diário de S. Paulo, acredita que esse tempo está encerrado.
O que diferencia o jornalismo é a qualidade da informação. O leitor revogou o jornalismo sensacionalista. A equação de valor de um produto é muito mais percebida do que há décadas, pois o dinheiro não sobra. O sujeito não quer deixar de recarregar o celular para gastar num jornal só com fatos inventados e piadinhas de gosto duvidoso. Hoje, é preciso oferecer mais por menos, diz Bruno.
Produto à venda
A professora Ana Rosa também acredita que os jornais populares de hoje não reeditam mais a fórmula "espreme-sai-sangue" que marcou o gênero. A imprensa popular de escândalo se transferiu para as revistas de celebridade e o telejornalismo justiceiro.
- Notícia é um produto à venda e, como tal, segue leis do mercado. Os leitores descartam agora o que obtêm de graça em noticiários da TV, que vivem da repetição, do exagero, do extravasamento da emoção, da injúria - afirma Ana Rosa.
Segundo a pesquisadora, tais características serviam a jornais que eram expostos como vitrine e tinham de chamar atenção, o que os obrigava a uma elaboração discursiva que atraísse o olhar do leitor, e isso firmou o humor informativo como constitutivo do gênero.
Categorias
Bruno Tyschler divide os diários atuais em três categorias: os "qualis", tradicionais da grande imprensa (como O Globo, Estadão, Zero Hora); os "populares de qualidade" (Diário de S. Paulo, O Dia, Agora) e os "populares compactos", tabloides como Supernotícia, Aqui (ambos de Minas Gerais) e seus concorrentes cariocas Meia Hora e Expresso. O modelo anterior teria caducado.
- O jornalismo apelativo dos anos 50, que sobreviveu até os 80, distorcia, inventava coisas que não existiam. Isso deu à imprensa popular uma conotação ruim. Hoje, as classes B e C são uns 70% da população, gente que quer informação útil, revelante para a vida, acima de tudo acessível e gostosa de ler - diz o diretor.
Nesse contexto, o humor se tornou a embalagem preferencial da informação. Não por acaso, enumera Ana Rosa, os traços de retórica do atual jornalismo popular são recursos de duplo sentido, como ambiguidade, ironia, o discurso da malícia, o apelo à oralidade por meio de gírias e frases feitas, a alteração de provérbios e a hipérbole (exagero).
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O escândalo gráfico e linguístico não terá sempre equivalência, nesse tipo de jornalismo, com a importância do fato narrado. Ao crime hediondo veio somar-se à equação a cobertura da vida, nem sempre tão íntima, das celebridades.
"Luana não tem mais Dado em casa", por exemplo, é uma ambiguidade que aproveita um nome próprio para conferir sentido sexualizado ao particípio do verbo "dar". Com exemplos do tipo, o humor informativo construiu para si uma autonomia de linguagem sem precedentes no discurso jornalístico. A ponto de já se perceber "personalidades" do texto informativo bem-humorado. Segundo Bruno Tyschler, com a internet, o humor informativo ficou mais escatológico e infantilizado.
- A rede ampliou a base de acessos e mudou o eixo da informação, do jornal para a web. Como nos blogs a informação é o próprio autor, há muita bobagem circulante, mas há bobagens criativas e inteligentes. Esse humor rápido tem dado o tom da cobertura.
De fato, o trocadilho não podia ser mais infame. Mas nasceu pronto quando a saltadora Maureen Maggi ganhou o ouro olímpico em Pequim. A manchete do Meia Hora em 23 de agosto foi rápida no gatilho e associou o nome da atleta a uma marca de caldos:
"Maggi não dá sopa para as rivais e voa para o ouro".
A professora Ingedore Koch, do Departamento de Lingüística da Unicamp, acredita que jogos de implícitos, como esse, ainda são uma grande ferramenta linguística para dar humor a uma informação sem apelar ao sensacionalismo.
- Há estratégias linguísticas para tudo: somos estrategistas da comunicação. A maior ou menor finura do humor vai depender do veículo, dos objetivos do produtor do texto, do modo como gostaria que o texto fosse lido. O jogo dos implícitos é uma das grandes armas.
Materialidade
Seja qual for o meio, jogos de linguagem são armas de mercado. Na imprensa de pretensão popular, ajudam a perpetuar uma imagem do veículo na memória do público, independentemente do teor da notícia.
A professora Ana Rosa lembra um título do NP de 5 de maio de 1999, que usava a aliteração (repetição do som consonantal nas palavras de uma frase) para criar um trava-línguas informativo com um efeito ao mesmo tempo lúdico e humorado:
"Trio de tigres tritura casal de turistas".
- As pessoas achavam graça, mas quando eu perguntava do que se tratava, precisavam ler de novo para entender a história. Ao fabricar o risível, houve perda semântica. O título era de uma elaboração de linguagem tão concreta que esvaziou o significado e o que veio à tona foi o significante, sua matéria, a palavra.
O humor informativo chama atenção para a materialidade da linguagem.
- A linguagem no jornalismo popular é mais direta e didática, pressupõe que o leitor não tem o repertório, o nível de informação do leitor dos jornais qualis. Tradução, nesse caso, é importante. É preciso ser simples na forma, ser bem-humorado e saber traduzir - completa Bruno Tyschler.
Obras de linguagem
Para Bruno, há portanto duas formas de tratamento de linguagem nos populares compactos.
- Quando o grau de complexidade da informação é menor, é preciso embalar bem a informação, levar sabor aos fatos. A alternativa, nessa hora, é o humor. Mas quando a informação é mais complexa, a imprensa popular tende a dar preferência à tradução. Se o petróleo chegou a 40 dólares, é preciso dizer como isso vai afetar o custo dos alimentos, como o leitor pode se apropriar da informação para agir ou conversar com os amigos - exemplifica.
Segundo Ana, o humor na informação torna evidente que os fatos noticiados são, no fundo, obras de linguagem.
- Seleciona-se um ponto de vista, as palavras que devem ou não ser usadas. A notícia é uma construção, o uso da linguagem expõe uma posição na manchete, no lugar da página ocupado pela notícia. Não dá para falar em objetividade. Todo fato é construído, prevê um modo de estar no mundo, um ponto de vista - diz Ana Rosa.
A não ser que simplesmente invente uma informação, quem dá tratamento noticioso aos acontecimentos já assume o risco prévio da deturpação, independentemente do recurso narrativo que usa.
- O humor entra como modo de revestir, de moderar a fatalidade das tragédias - diz Ana.
De novo
Não haveria, assim, diferença orgânica entre a imprensa mais careta e a de estilo gozador. Desde que bem feita.
- Há uma seleção diferenciada dos fatos. As estratégias são as mesmas das de elite, mas aparecem com evidência maior, pois usadas com maior frequência - diz Ana Rosa.
As mesmas estratégias, na imprensa qualis e compacta. O papa João Paulo I morre em 1978, trinta e três dias após a morte de Paulo V. O já extinto Última Hora - ícone da grande imprensa da era Vargas - não se fez de rogado:
"O papa morreu. De novo".
- Tanto a grande imprensa quanto a alternativa lançam mão de recursos sensacionalistas para aumentar a venda de uma edição - diz Gumercindo Carvalho, o Gumae, autor do estudo Imprensa Sensacionalista, realizado para a Faculdade Cásper Líbero em 1992, e editor da revista Melhor - Gestão de Pessoas.
A diferença, diz Gumae, é de grau: o sensacionalismo remexe as sensações físicas e psíquicas mais básicas e adota procedimentos apelativos em busca do incomum e do grotesco, mas as exigências do cotidiano e o avanço tecnológico fazem com que as pessoas busquem mais e mais informações para viver. A gangorra entre essas exigências e a estandardização dos fatos definirá o estilo.
- A informação aparece de maneira total (na imprensa popular), isto é, não é necessário o leitor ter lido a edição do dia anterior, não se exige do leitor pontos no seu campo cultural para que possa ler a informação - escreve Gumae em seu trabalho.
O chiste será uma estratégia também para os veículos qualis.
- Humor é forma de fazer a crítica, e títulos são peças de humor. Pode dar o fato e o comentário, simultaneamente. Para o jornal de elite, é a saída para preservar sua aparente objetividade, mas não deixar de posicionar-se - diz Ana Rosa.
O teste do título | A câmara municipas de Atibaia (SP) incluiu uma questão sobre os títulos de jornais em um concurso público realizado em 2005. Marque a alternativa correta.
| | Os editores rejeitam os títulos com aliterações porque afastam a atenção do leitor do conteúdo. Aponte o título que usa esse recurso | | A | Papa pede pela paz | | B | Touro vale ouro, mas não da no ocuro | | C | Violada no auditório | | D | Cachorro fez mal à moça | | E | A "casa caiu" e dirceu confessa mensalão | | | R:A |
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Diferenças
Para a professora de linguística Norma Discini, da USP, como o sistema de delegação de vozes (citações que respaldam reportagens) é regra no texto jornalístico padrão, da imprensa qualis ou de populares compactos, a separação entre notícia factual e sensacionalista não se sustenta. Entretanto, considera "inegável" certa identidade discursiva, certo modo de presença do sujeito que faz e lê o jornal.
- A temática se alia ao estilo da notícia, para que se defina uma linha que separa um jornalismo de outro. Assim se distinguem diferentes tons de voz do enunciador da notícia e do jornal - diz Norma.
Segundo o linguista Sírio Possenti, professor da Unicamp e colunista de Língua, o humor da informação equilibra-se na fronteira entre o que é transmitido e a forma como é.
- Não saberia "ditar" um limite para o humor, mas diria que, quanto mais "popular" um veículo se vê, mais ele se dá o direito de fazer humor. É uma forma de ser popular, aliás, já que o humor se liga historicamente ao "baixo", isto é, ao rebaixado ou rebaixável.
Já para a gramática Maria Helena de Moura Neves, da Unesp Araraquara e do Mackenzie, o que explica a nova safra de jornalismo popular com mais humor e menos sensacionalismo é a finalidade da notícia.
- Na retórica (e o jornalismo por ela se governa), as estratégias se põem a serviço do 'fim' que é determinado pelo 'auditório'. Definidos estes para humor, há humor a perseguir, não sensacionalismo: a linguagem serve, eficientemente, a esse fim. Mas, definidos estes para sensacionalismo, por aí vai a linguagem (com ou sem humor).
Responsável por jornais como Extra e Expresso, Bruno Tyschler acredita que não há uma maneira universal de se construir um texto informativo de humor.
- O conteúdo determina a forma. Usar o acervo do próprio leitor, que é informal, simples, deixa o jornalista mais à vontade para ser menos careta. O texto não fica tão "engravatado" e precisam ser bem elaborados para funcionar.
Técnicas
Norma Discini, da USP, acredita que o humor no jornalismo vem do contraste: lembrar a notícia original e ler a frase ou a charge dela derivada constrói o riso informativo. Os limites desse tipo de humor informativo estariam, segundo ela, na própria "totalidade discursiva que lhe é subjacente". O jornalismo popular tende a selecionar atores sociais estereotipados. E em lugar de renovar-se por meio de um grotesco que se voltaria para o inacabamento e a ambiguidade, o humor dos jornais compactos toma o mundo como pronto e acabado. O riso provocativo e experimental, com entrecruzamento de entonações diferentes, entre o que está dito e o que é sugerido, divergiria do humor sensacionalizado, que manteria nítidos os limites entre verdade e mentira.
Para Bruno Tyschler, o maior problema do gênero é mesmo errar a piada.
- O bom humor é uma lente para olhar o mundo. Quando a informação comporta um olhar diferenciado, a piada se impõe. Mas há situações que não cabem brincar. É preciso estar pronto para saber onde está o humor da coisa. Não temos obrigação de fazer graça, mas de informar.
Por mais sofisticado, jornal ainda é produto artesanal, resultado direto da criatividade linguística e do rigor na verificação dos fatos. O jornalismo popular ganha quando informa bem. Se não perder a piada, melhor.