O bom livro infantil
Escritores e ilustradores comentam os atributos - e os pecados - do ramo

Carolina Costa

Leuconíquio, Noctâmbulo, Pilhério - quem faria um livro para crianças com personagens de nomes tão complicados? Pois Adriana Falcão não só se atreveu como contou a história do povo de Desatino do Norte e Desatino do Sul em 328 páginas, que, exceto por uma ou outra ilustração em preto e branco, estão repletas de letrinhas. Além de ter um personagem "quefalatudojunto", Luna Clara & Apolo Onze propõe um ir-e-vir no tempo: a narrativa se divide entre pontos de vista, às vezes surge de um lugar para depois reaparecer em outro, quando não esconde histórias paralelas.

Embora as editoras neguem, um velado "manual" do que consideram um bom livro infantil parece agir na surdina. Para um mercado em que "bom" é o que vende, dá para ter idéia dos tópicos desse manual informal: o livro infantil deve ser fino, pouco texto, cheio de ilustrações coloridas, história simples, fácil de acompanhar, e, mais importante, com final feliz. Nada de fazer criancinhas chorarem. Se conseguir reunir tudo isso e ainda passar alguma lição moral, os pais vão adorar.

A despeito de contrariar as recomendações virtuais desse manual, Luna Clara & Apolo Onze virou sucesso. Publicado em 2002 pela Salamandra, foi elogiado pela crítica e bem recebido pelo público. Ganhou prêmios e o selo de altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), instituição cuja opinião é levada em conta pelo mercado - o mesmo que execraria a obra se ela surgisse como um original tímido de um autor menos conhecido (Adriana Falcão, como se sabe, fez seu nome no mercado do teatro, da TV e do cinema).

- É curioso como as editoras querem livros adultos cada vez mais originais, mas morrem de medo de quem busca ousadia ao escrever para o público infantil - comenta Adriana Falcão.

Aquarelista e ilustrador premiado, Odilon Moraes concorda.
- As pessoas acham que fazer livro para criança é mais fácil e acabam publicando coisas que teriam vergonha de mostrar para um adulto.

Cansado dos dogmas editoriais - capa branca não pode, personagem tem de estar de frente, capa verde não vende, roxo é cor de menina -, Odilon decidiu investir em trabalhos mais autorais e submetê-los à avaliação somente depois que estivesse satisfeito com o resultado. Em 2004, publicou, pela Cosac Naify, Pedro e Lua, um livro completamente preto e branco, com ilustrações que lembram rascunhos. Na capa, só um céu estrelado - transgressão coroada por uma dezena de prêmios.
 
- Quando a gente tem de discutir o sexo das cores, é um sinal de que as coisas precisam mudar - conclui o ilustrador.

- É preciso que os livros sejam instigantes, provocadores e despertem o senso crítico das crianças - diz Gonzalo Cárcamo, aquarelista que acaba de lançar Thapa Kunturi (Companhia das Letras).

Senso crítico
Segundo Cárcamo, essas recomendações gerais ajudam a estimular a imaginação do leitor mirim. A exemplo de um de seus trabalhos premiados, Modelo Vivo, Natureza Morta, Cárcamo defende que um bom livro ilustrado não tem idade e permite vários níveis de interpretação.

Outras características louváveis, observa a decana e também premiada Tatiana Belinky, são sua "santíssima trindade": ética, estética e emoção.

- Obra ética é a que leva o leitor a pensar com a própria cabeça. Sou capaz de tirar conclusões sem que um autor me diga explicitamente o que pensar.

Desde pequena, diz a escritora, ela tem alergia a histórias que terminam com lições de moral. Autor do recém-lançado As 14 Pérolas da Índia (Brinque-Book), Ilan Brenman sintetiza em uma frase essa noção de ética:

- Os finais dos livros infantis deveriam propor abertura e não fechamento.

O Ilustrador Ivan Zigg: com linguagem tatibitate, melhor nem ler infantis
Para ele, a estética de uma obra é a reunião de um texto bem escrito, uma diagramação caprichada e acabamento gráfico primoroso. Deveriam ser pressupostos de um livro publicável, mas nem todo mundo leva em conta o acabamento estético na literatura infantil.

Tatiana cita uma frase de sua neta de 7 anos: "Ai, vó, um livro que não dá para rir, não dá para chorar, não dá para ter medo nem para ter raiva, não serve para nada, né?". A capacidade de gerar sentimento, mesmo tristeza ou melancolia, é qualidade destacada por autores do gênero.

Difícil mesmo é encontrar a linguagem para emocionar sem pieguices.

- Muita gente acredita que criança só entende linguagem tatibitate. Depois, reclamam que os filhos não lêem, mas, pudera, se for para ler tatibitate, melhor nem ler - diz o ilustrador Ivan Zigg.
Adriana Falcão: sucesso com livro infantil 328 páginas com nomes complicados e brincadeiras de linguagem

Senso crítico
Segundo Zigg, um livro ilustrado precisa de texto que flua e desperte a curiosidade do leitor.
 
- Pode tratar de qualquer coisa, até do cocô que caiu na cabeça da toupeira [referência a Da Pequena Toupeira que Queria Saber Quem Tinha Feito Cocô na Cabeça Dela, de Werner Holzwarth, Companhia das Letrinhas], mas tem de ser atraente, com uma linguagem que flua. É um erro o pai comprar um livro para o filho só porque gosta do tema.

Contador de histórias, ilustrador e autor de mais de cem obras, Ivan não poupa de críticas os livros politicamente corretos. É que o maior comprador de livros infantis é o MEC, que adquire tiragens de obras para distribuí-las em escolas. Ao menos, as que ensinam valores, bons modos ou, mais freqüentemente, que toquem em pontos atuais, como ecologia e inclusão.

- Algumas escolas não adotam meu A Dobradura do Samurai porque o personagem morre. Não tenho nada contra temas pedagógicos, desde que sem bom-mocismo. Você conhece coisa mais transgressora que criança? - aponta Ilan.

No universo da produção literária para crianças, a pasteurização pode ser um pecado capital contra o futuro.

Manual do livro infantil imbecilizante

Conheça os sete pecados de uma obra literária para crianças

1. Diminutivinhos
Não é preciso escrever para criancinhas desse jeitinho: elas detestam que as tratem como bobinhas.

2. Nomes óbvios
O Gato Miau, o Cachorro Au Au, Borba a Leta e outras maravilhas da criatividade humana.

3. Rimas miseráveis
Alguém prenda esses autores que rimam amores com flores e coração com paixão!

4. Criança-adulto
Poucos, como os criadores de Mafalda e Calvin, sabem fazer isso com a ironia e graça necessárias.

5. Moral da história
Usar a literatura para moralizar é coisa de autor que nunca teve infância.

6. Diagramação histérica
Hiperlinks, curiosidades, fotos, ilustrações, linha do tempo, ufa! Cadê a literatura?

7. Ilustrações literais
Texto e ilustração devem se complementar e não ser redundantes. Se a imagem é uma mera transposição, para que ler?

- Machado é uma vitória do estilo
- Não há rosas sem espinhos
- O lugar do lugar-comum
- A chacrinha da palavra

 
 
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