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| Ruth Rocha com seus inspiradores (bonecos da esq. para a dir.): Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato e Mário de Andrade |
O gravador está ligado há cinco minutos e ela já conta a primeira das histórias que vão permear a entrevista.
"É uma história de uns fazendeiros que brigam. E aí um diz para o advogado:
- Vou mandar uns perus para o juiz.
E o advogado:
- De jeito nenhum! É aí que ele faz você perder a causa!
Aí passou o tempo, e esse fazendeiro ganhou a causa. Aí ele falou com o advogado:
- Não foi bom mandar os perus?
- Mas mandou os perus? Não disse para você não mandar?
- Ah, mas mandei no nome do outro!"
Para cada opinião, contexto ou brincadeira, a escritora Ruth Rocha lembra um causo, real ou fictício. Dos tempos de menina, vividos no bairro paulistano da Vila Mariana, e dos que criou adulta, impressos ou inéditos "que ainda estão voando por aí", como ela mesma diz.
Ficção virou atividade muito natural a essa senhora de 77 anos, fala mansa e traços fortes. A escrita direta e oralizada em 140 livros (muitos traduzidos para mais de 25 idiomas) faz crer que Ruth encontrou seu caminho até a mente infantil. Só Marcelo, Marmelo, Martelo (1976) vendeu mais de 1 milhão de exemplares. A história do menino que inventava nome para as coisas foi inspirada na filha Mariana (hoje, com 46 anos), que, criança, perguntava coisas do tipo "por que a barriga da perna não tem umbigo?"
Formada em Sociologia e Política, Ruth conquistou parte de seu repertório nos 15 anos em que atuou como orientadora educacional, no colégio Rio Branco, em São Paulo. Depois de escrever artigos sobre educação, passou a colaborar com histórias para a então recente revista Recreio, em 1969. Foi aí que a escritora começou a destruir a máxima que ouvia desde pequena, a de que "criança era para ser vista, não para ser ouvida".
Recém-eleita para a Academia Paulista de Letras e em via de lançar mais um título, Solta o Sabiá (Companhia das Letrinhas), diz esperar por uma nova literatura infantil. Uma que dê um passo além do de sua "geração de 70". Ainda não teria surgido algo diverso da proposta de ser contra os "bons costumes", com visão do homem e de sua relação com o mundo menos careta e mais humanista, num estilo coloquial, sem rodeios ou moralismos disfarçados em lição de moral. O principal, diz Ruth Rocha, é conhecer a criança. O que nem sempre se vê nos livros infantis. Ser atual não é ser novo. "E sempre espero o novo."
Língua Portuguesa - Como em Marcelo, Marmelo, Martelo, a senhora criava palavras quando criança?
Ruth Rocha - Na minha família, a gente brincava muito com palavras. Meu pai dava corda. Sempre contava as histórias do [poeta] Emílio de Menezes, um trocadilhista. Uma atriz sentava na frente dele no teatro, aí o Emilio levantava e apontava as cadeiras vazias: "Atrás há três, atriz atroz!" Mas era meu avô [Francisco Sabino Coelho de Sampaio] o contador de histórias da família. Analisando hoje, sei que ele contava Andersen, Perrault, Grimm, As Mil e Uma Noites, histórias folclóricas. Essa fabulação toda ficou em mim. Ele era primo de 2º ou 3º grau do Castro Alves, e declamava a obra inteira dele. Meu pai, minha mãe e avó gostavam de cantar versos. Era uma família muito faladeira. Todo mundo diz que meu estilo é oral. Deve ser por ter ouvido muita história.
Sua narrativa é econômica, simples e direta. Como é o seu método de produção e lapidação narrativa?
Minhas histórias ficam na cabeça um bom tempo. Tenho o começo, o personagem engraçado, mas isso ainda não rende história. Penso mais uma parte, um nome engraçado talvez, até que ela se forma. Até aí fico só pensando na história, sem método. Tenho mil histórias voando por aí que quero escrever. Mas estão incompletas. Falta um gancho, um elemento para fechar melhor. Quando percebo que está inteira, escrevo de uma vez só. Em geral, tenho a história quando tenho o fim. Há escritores que entram num livro sem saber o que vai acontecer. Nunca entro sem saber. Posso mudar no meio, mas aí já tenho um outro fim.
Ao escrever evita alguma palavra ou tempo verbal?
Não. Às vezes, implico com algumas palavras. Mas não por princípio. Não gosto de pronome proclítico, mas tem hora que não dá para evitar. Aí eu uso. Quando a personagem é criança, não coloco.
E as palavras estrangeiras?
Costumo colocar tudo em português. "Milquecheique", cachorro "pudol". Eu gosto. Implico com palavra estrangeira. Tudo quanto é edifício tem nome de fora... É muito bobo. Mas sei que é assim que a língua se renova. O off da liquidação das lojas, ou vai ficar pra sempre ou vai sumir ali na esquina.
Preocupa-se em evitar palavras difíceis nos livros?
Depende. Muito difíceis, eu evito. Mas acredito que as crianças tenham mais dificuldade com idéias abstratas do que com palavras concretas. Quando você não conhece a palavra, pela frase consegue matar [o significado]. Aliás, foi assim que apreendemos as palavras: lendo e não entendendo. Aí a gente deduz ou vai ao dicionário. Digo que não se deve evitar muito as palavras difíceis, mas se deve evitar as palavras muito difíceis. Palavras técnicas, por exemplo, não há motivo para estarem em obras infantis.
Já pensou em atualizar as suas histórias?
Uma editora já me pediu isso. Mas, sabe o que acontece? Ninguém atualiza Monteiro Lobato, ou livros escritos há cem anos. Todo mundo entende. Agora, tenho projeto de um livro para jovens que discuta ética, outro que fale sobre namoro. Aí não tem jeito, terei de incluir algo do internetês. Como vou lidar com essas palavras? Não sei. Nunca escrevi um livro que incluísse alguma.
Como reage quando os críticos dizem que literatura infantil é "mais fácil"?
Olha, já me chateei muito com isso. Já fiquei achando que é absurdo, uma injustiça... Depois concluí que o mundo é assim. Tem gente que valoriza e gente que não. Acho literatura infantil importante e está cheio de grande escritor que escreveu para criança e quebrou a cara. Escrever para criança ou é fácil ou é impossível. Ou você tem ligação com criança, cumplicidade, ou não tem. E se tem, contar uma história não é difícil, não sai forçada. Literatura infantil é um gênero, como teatro, poesia. Para mim não é difícil, é normal, é trabalho. Acho que sei o caminho. Ao passo que escrever para adulto, eu não sei. Já quis, não deu. O engraçado é que minha leitura é 90% adulta. Só às vezes leio literatura infantil. Mas, em grande parte, acho tudo muito ruim.
Qual o problema mais grave que vê nos infantis?
As pessoas escrevem como quem escreve para o colegial. Não tem traço literário naquilo. E a maior parte não sabe o que
é criança. Tem gente sem noção, que faz historinhas sobre os filhos, os netos, o cachorro... Saem falsas. Outra coisa boba são histórias de objetos humanizados, tipo "a história da xícara que se apaixonou pelo pires...". Bicho a gente humaniza com facilidade. Estão aí as fábulas. Você faz história de bicho, as pessoas sabem que é sobre gente. Mas o pior é que as pessoas não têm uma história para contar. Param no meio, e quando fecham, é uma bobagem.
Como você avalia o livro infantil produzido hoje, por autores novos?
Leio pouco. Mas os que li têm problemas éticos, estéticos, de desconhecimento da criança. Histórias indicadas para criança muito pequena mas que parecem escritas para criança grande. Com referência a problemas que não são de criança. Por exemplo, história de amor entre crianças. Bobagem. Os adultos é que inventam isso. A criança até a puberdade não pensa nisso. A Luluzinha é perfeita, odeia meninos, tem o clube do Bolinha. Há também muita história com bom-mocismo e moral no final. Ou melhor, as histórias sempre são morais, mas nunca devem ser moralistas. Com o moralismo, as histórias sempre terminam com um "então, você não deve desobedecer à mamãe, nem ao papai, pois Deus castiga".
A criança interage com livros como antigamente?
A realidade é outra. Mas meu livro que mais vende teve a história editada em 1969, virou livro em 76 e continua vendendo, o Marcelo. A criança não mudou muito. A diferença é que hoje ela é incluída na vida do adulto, muito mais do que antes. Mas tem desenvolvimento ainda igual ao de todas. Começa a falar, andar, engatinha na mesma época. Quem mudou foi o adolescente. Foi exposto a muita coisa, mais do que a criança. A partir de certa idade, fica um diferente do outro. É uma fase difícil de entender. Antigamente, as regras da vida eram mais restritas. O menino ia à escola, ao curso ou à faculdade que o pai queria. Então, as pessoas ficavam mais iguais. Com a modificação da sociedade - abertura política, sexual e maior compreensão do adulto sobre o jovem -, é mais difícil escrever para o adolescente. Eles, sim, são um desafio novo.
A senhora já fez minidicionário e paradidáticos. Qual estimula mais a produção de texto, ficção ou paradidático?
O paradidático pode estimular porque é usado em classe, e o professor indica exercícios com base na obra... Mas o livro de ficção, que se escolhe por espontânea vontade, este transforma. O paradidático só informa. A gente tenta fazer com que transforme, mas o outro livro é que forma um escritor ou leitor mais feliz.
O mercado é tomado por obras com muita interação, dobradura, livro de pano e outras modas. Qual sua opinião sobre o fenômeno?
Depende, se o livro for bom, funciona; se for ruim, não. Tem um muito interessante, Dentro do Espelho, da desenhista Luise Weiss. Também admiro a Anna Flora Camargo Coelho, que escreveu A República dos Argonautas, para adolescentes.
Com o acordo ortográfico, os livros serão reeditados. O que acha do acordo?
Tenho várias opiniões. Universalizar a língua é interessante. Nos países de língua inglesa, todo mundo escreve igual. Nos de língua portuguesa, ao contrário, vai cada um para um lado, fazem-se reformas e mais reformas, e vai-se diversificando o idioma. Por outro lado, tive uma briga com o [escritor português José] Saramago por causa de língua. Estava numa festa, ele, eu e o [escritor] Silvio Fiorani conversando e concordando que essa historia de mudar toda hora a língua é ruim porque a língua é parte da cultura da gente. Escrever com ph ou com f, é da cultura da gente. E o Saramago ficou furioso - ele já é bravo. Disse que achava um absurdo, que o português deveria fazer um esforço para ser universalizado. Não é que ele esteja sem razão. Fico com essas duas opiniões.
A grafia a preocupa?
Há palavras no meu vocabulário que não sei escrever porque mudaram tantas vezes na minha infância que eu não sei mais. "Açúcar" foi escrita até com z. Já tinha sido com ss, com ç. "Sapato" era escrito com z. Ele nunca me marcou porque sempre achei o som diferente, mas "açúcar", acho que não sei escrever até hoje! Tenho sempre de dar uma consultada no dicionário. "Jeito", até aprender que era com j... Levei anos sem saber! E quando escrevi uma poesia chamada Com G ou com J, fiquei cheia de dúvidas.
A senhora sempre criticou os "bons costumes" em infantis. Considera um equívoco a onda politicamente correta em músicas e livros atuais?
É detestável, uma bobagem. Há um perigo muito grande na ditadura das editoras. Elas têm opiniões a respeito de livros, e que nem sempre são as melhores. O Ministério da Educação publicou a Lei de Diretrizes e Bases [sobre currículos escolares, em 1996], que recomenda - entre outras coisas - a leitura direcionada para temas mais específicos, como educação ambiental, sexual. Eles são chamados de livros com temas transversais. Mas acho que a idéia foi mal compreendida. Algumas editoras começaram a encomendar livros com esse viés, quando, na verdade, a intenção do MEC era que as pessoas comprassem bons livros. Aí ficou uma coisa forçada, com a publicação de histórias sem-pé-nem-cabeça. A editora não tem de dar rumo, pautar a literatura. A literatura tem como maior objetivo ser nova, fresca, nunca pré-pautada.
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| Ilustração de Adalberto Cornovaca para Marcelo, Marmelo, Martelo: clássico contemporâneo |
A senhora já disse que a geração de autores infantis que ainda fazia sucesso era a "geração da ditadura", a sua. Algo novo apareceu?
Não acho que a nova geração esteja levando a proposta de livro infantil adiante. Nós, dos anos 70, ainda temos uma proposta nossa que continua nos outros [nos de hoje]. Ainda não vi uma proposta nova. Não há uma geração de escritores cultivando um tipo de literatura nova, como nós [de 1970] fomos em relação ao Monteiro Lobato. Tivemos influência dele, mas a nossa proposta é bem diferente. Toda essa geração - Ana Maria Machado, João Marinho, Marina Colasanti, Lygia Bojunga, Edy Lima, Bartolomeu Campos Queirós, entre outros -, toda essa gente foi uma geração que renovou bastante.
Na ditadura, percebiam seu "truque" de criar livros sobre reis (como O Reizinho Mandão) para falar dos poderosos do momento?
Fui a uma escola no fim dos anos 70 e um menino, de uns 9 anos, falou: "Esse rei aí é o presidente da República?". E eu: "Pode ser um presidente da República, um pai ou um professor autoritário...". E ele: "É, mas esse aí é o presidente da República". E eu: "É, esse é o presidente". Ele retrucou: "E você não tem medo da polícia?". Nunca tive história ou livros vetados. Mas me lembro que o João Marinho foi detido com uma professora que o havia convidado para palestrar na sua escola, em São Paulo, quando ele estava escrevendo O Caneco de Prata, em que contava uma história sobre esquadrão da morte. A professora foi afastada do cargo estadual e ele, detido por um dia.
Com o fim do AI-5, houve um boom literário infantil. Foi a resposta da sua geração, para alertar as crianças do período que o país passara?
Olha, não foi assim, não. Foi tudo individual, cada um por si. Fui cunhada da Ana Maria Machado e nos tornamos amigas. Escrevemos para a mesma revista Recreio, escrevemos livros mais ou menos ao mesmo tempo. Tínhamos as mesmas influências, mas uma não recebia influência da outra. Nossas influências eram de Lobato, da abertura política, de várias coisas juntas. Até porque, nessa época, ela estava na Europa. E tem gente que confunde nossas histórias.
Mas acha que essa geração conscientizou as crianças do que foi a ditadura?
Não sei. Uma vez, eu e Ana Maria estávamos numa Bienal e chegaram jovens de 18 e 19 anos. Nós começamos a perguntar se eles tinham influência política nossa. E um deles disse assim: "Ah, e por que acha que a gente pintou a cara no impeachment do Collor?". Nunca tinha conversado com um jovem que tivesse dito isso antes. Achava que estava contando para eles como as coisas eram, mas não sabia no que tinha dado mais tarde. Tenho contato com criança menor, mas depois que crescem não se sabe a influência que deixou.
Como o não-especialista - pais, por exemplo - po-de identificar um bom livro infantil?
Escolheria os clássicos. É o melhor critério.