Na boca do povo
As expressões e as palavras de filmes que viraram moda no vocabulário brasileiro

Gabriel Jareta

O treinamento de recrutas em Tropa de Elite: expressões como "zero um" até no Maracanã

O placar do Maracanã apontava quase 30 minutos do segundo tempo e persistia o empate em 1 a 1 entre Flamengo e Botafogo na noite de 29 de agosto, pelo Campeonato Brasileiro. O resultado significava o quinto clássico seguido entre os times cariocas que terminaria empatado. Numa jogada dentro da área, Obina é agarrado. Pênalti para o Flamengo. O atacante Souza ajeita a bola e se prepara para fazer o gol da vitória. Mas bate fraco e o goleiro do Botafogo defende, para desespero dos rubro-negros. A torcida, então, começa a gritar para o jogador:

- Zero um, pede pra sair! Zero um, pede pra sair!

A frase é do filme Tropa de Elite, repetida, nas telas, pelos capitães do Bope, como forma de provocar a desistência dos recrutas em treinamento. Além de um fenômeno de público, em muito devido à pirataria, Tropa de Elite também está se mostrando um fenômeno da língua, com a repetição nas ruas dos bordões e expressões do anti-herói Capitão Nascimento (Wagner Moura). O diretor do filme, José Padilha, flamenguista doente, se surpreendeu com o alcance da sua obra:

- Embora eu seja contra a pirataria, eu sou Flamengo antes de mais nada. Eu estava em casa e um amigo me ligou do Maracanã depois de o Souza ter perdido um pênalti para dizer que a torcida estava gritando "Zero um, pede para sair!", que é uma das falas do filme. Eram umas 40 mil pessoas. Isso me emocionou - contou o diretor em entrevista ao Programa do Jô, antes de o filme entrar em cartaz, em 12 de outubro.

No filme, associadas à cara de mau e à violência, nas ruas, nos bares, nas escolas, as expressões de Tropa de Elite são incorporadas ao repertório em tom de brincadeira. Um sujeito inexperiente em algo é um "aspira". Ao interlocutor que acaba de cometer um deslize ou dizer uma besteira, agora se pode dizer: "O senhor é um fanfarrão!" ou "Tu é moleque!".

O longa Cidade de Deus, difundiu a frase chula como sinal de auto-afirmação

Quem quiser mostrar "atitude" ou pedir respeito, basta falar que "aqui é faca na caveira", em alusão ao emblema do Bope. Desde que o tapa na cara e o saco plástico permaneçam distantes do uso cotidiano, os bordões de Tropa de Elite recheiam a linguagem popular do mesmo modo que fizeram outras frases de filmes - no mais das vezes, desvirtuadas do uso original para os mais diversos contextos. 

- As expressões que "pegam" remetem a um uso lúdico da língua. Teríamos então um uso corrente, pelo qual montamos as estruturas lingüísticas, criando regras próprias nos domínios do léxico, da gramática, da semântica e do discurso, a que se contrapõe um uso brincalhão, de descontruir o que se construiu - observa o lingüista Ataliba de Castilho, da USP.

Aspira

O professor do curso de Letras da USP faz a "desconstrução morfológica", por exemplo, de "aspira". Segundo o lingüista, casos desse tipo são chamados de "derivação regressiva", em que o sufixo é extraído, encurtando a palavra.

- Retirou-se o -nte de "aspirante", como em "profissa", por "profissional", termo usado pela Bebel (Camila Pitanga) na recente novela da Globo (Paraíso Tropical). Casos como "aspira" podem explicar-se pela aplicação de regras gramaticais ao contrário, morfológicas, no caso - lembra.

Além dos malabarismos lingüísticos próprios dos falantes brasileiros, a repetição de uma expressão vinda do cinema mostra uma aproximação cultural entre os falantes. Apesar de enxergar muito mais fenômenos do tipo com os bordões de personagens da TV, o crítico de cinema Sérgio Rizzo acredita que duas razões principais explicam o que faz alguma expressão "pegar":

- Por que as pessoas repetem? Porque essas frases são boas e se aplicam a inúmeros contextos. Além disso, configuram laços:

 "Você sabe do que estou falando" é o subtexto - afirma.

Zé Pequeno

Outros filmes do cinema brasileiro recente também trouxeram contribuições à língua. A publicitária Mariza Gualano é pesquisadora apaixonada de frases de filmes. Já escreveu um livro sobre o assunto e agora está preparando uma edição só com frases do cinema brasileiro. Para ela, uma das falas mais fortes do cinema recente vem de Cidade de Deus (2002), na cena em que o personagem Dadinho (Leandro Firmino da Hora) assume seu novo nome. A frase é chula, mas poderosa: "Dadinho é o caralho! Meu nome agora é Zé Pequeno".

- Não é raro encontrar alguns jovens repetindo a citação e aplicando-a ao contexto de sua conversa - diz Mariza.
A publicitária lembra que a frase de Cidade de Deus foi também repetida em outro filme brasileiro, Ódiquê, em diálogo metalingüístico de dois personagens.

No Rio de Janeiro, onde Mariza vive, uma fala do filme Olga saltou das telas para a linguagem dos jovens, mas com total inversão de sentido. Dita de maneira séria (talvez canastrona) no filme, é repetida em tom de deboche.

A frase "estou grávida de Luís Carlos Prestes", dita pela protagonista interpretada por Camila Morgado, passou a ser dita até em mesas de bar cariocas.

- Em faculdades há sempre alguém que pede ao professor para ir embora mais cedo pois "está grávida de Luís Carlos Prestes". Isso ocorreu na época de exibição do filme e foi até matéria de jornal - relata Mariza.

Quando ainda não havia a concorrência da televisão, o cinema e o rádio eram as grandes fontes de modismos lingüísticos no Brasil do século 20. O cinema, em seu início, era o espaço natural das estrelas do rádio.

- Mesmo as pessoas que escreviam para o cinema vinham do rádio. E como quem morava no Acre, por exemplo, poderia ver Orlando Silva ou Carmem Miranda? Só no cinema - diz Maximo Barro, professor da Faap e pesquisador da história do cinema.

Alô, alô!

Segundo ele, uma das marcas dessa influência conjunta de rádio e cinema pode ser traduzida por uma expressão que dominou os anos finais da década de 1930, a interjeição "alô, alô!".

Camila Morgado, (acima) como Olga: no Rio, frase do filme virou desculpa para sair de fininho

Dois filmes brasileiros da época, ambos estrelados por Carmem Miranda, traziam no título a expressão: Alô, Alô, Brasil (1935) e Alô, Alô, Carnaval (1936), este o maior sucesso de público de seu tempo. Levando-se em conta uma composição de Noel Rosa de 1933, o "cinema falado é o grande culpado da transformação". Dizia a letra da canção "Não tem tradução":

"Amor lá no morro é amor pra chuchu/ As rimas do samba não são I love you/ E esse negócio de 'alô, alô, boy' e 'alô, Johnny'/ Só pode ser conversa de telefone".
Carnaval

Dessa época até as chanchadas dos anos 50, era principalmente a relação entre carnaval e cinema que levava à boca do povo os bordões das canções mais populares da folia. As expressões e as músicas, em sua maioria, tinham prazo de validade de seis meses a dois anos e depois desapareciam, ou porque eram substituídas ou se desgastavam pelo excesso de uso.

- Para ter uma idéia, as filmagens (das chanchadas) tinham início em novembro e paravam em janeiro e fevereiro para esperar quais seriam os sucessos do carnaval, que depois entravam no filme - conta Barro, da Faap.

Guerra nas Estrelas levou a expressão "Que a força esteja com você" ao vocabulário do país

Também o cinema americano, de acordo com o professor, era responsável por introduzir na língua portuguesa expressões do inglês, como "baby" e "come on, boy" (que no Brasil se transformou em algo que soava como "camoni, boy", lembra Barro). Um exemplo da resistência desses termos fez por anos a festa de tipos populares, como Zé Bonitinho.

Além de inspirar galãs "americanizados", as expressões podiam ter conotações sociais, embora ainda mantivessem o propósito de piada. Barro se recorda de um filme que falava dos problemas raciais, Também Somos Irmãos (1949). No longa, Grande Otelo e Aguinaldo Camargo fazem dois irmãos negros que tomam destinos diferentes: enquanto o primeiro vai para a marginalidade, o segundo forma-se advogado. Em um diálogo do filme, Miro, o personagem de Grande Otelo, diz: "Esse negócio de preto de alma branca pra mim é fantasma". Barro observa que o contexto do filme era "explicitamente social", mas a anedota ganhou as ruas e muitos negros passaram a repetir a frase, nas mais diversas situações.

"Hasta la vista, baby!"

Grandes sucessos do cinema americano também tiveram falas e trechos de diá­logos incorporados à língua portuguesa do Brasil em tempos mais recentes. Saída de Star Wars (1977), a recomendação recebida por Luke Skywalker ecoa até hoje. "Que a força esteja com você!" é uma expressão que ultrapassou a "galáxia muito distante" para ser facilmente compreendida em variados cenários no Brasil. Ainda no campo do cinema de ação, a última fala de Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro 2 é até hoje lembrada e repetida em sua forma original, misturando espanhol e inglês. Não é incomum alguém, ao se despedir, deixar escapar um "hasta la vista, baby".

Na opinião de Ataliba de Castilho, por trás da frase clássica de Schwarzenegger encontra-se um sintoma lingüístico do choque de culturas da globalização, em que línguas diferentes passam a conviver numa mesma expressão.

- Esta seria uma vertente pragmática, discursiva, do uso lúdico da língua - aponta o lingüista.

Para a publicitária Mariza, parte do fascínio das expressões cinematográficas que "pegam" está na possibilidade de recortá-las de uma situação e "dar um zoom" sobre elas, descobrindo seu poder de síntese e significado.

- Uma frase sintética e bem-feita pode ser muito poderosa. Ela é capaz de expressar em poucas palavras uma idéia inteira - diz.

100 frases célebres

Pesquisa norte-americana escolheu frase "Francamente, querida, eu não dou a mínima" de ...E o Vento Levou como uma das mais marcantes do cinema

Para comemorar os cem anos de cinema, completados em 1995, o American Film Institute divulga todo ano uma lista dos "cem mais" do cinema. Em 2005, o instituto compilou as cem melhores frases da história do cinema até então. A fala campeã é de ...E o Vento Levou (1939), quando Rhett Butler diz a Scarlett O'Hara: "Frankly, my dear, I don't give a damn" (algo como "Francamente, querida, eu não dou a mínima").

Entre outras frases reunidas, estão algumas bem conhecidas no Brasil, como a de E.T. (1982), "E.T., telefone, minha casa", ou "Eu vejo pessoas mortas", de O Sexto Sentido (1999). A lista está disponível na internet, no endereço www.afi.com.

No Brasil, a publicitária Mariza Gualano garimpou as suas frases preferidas de filmes e as reuniu no livro Ouvir Estrelas, de 2002. Agora ela prepara uma edição ampliada da obra, ao mesmo tempo em que faz pesquisas para publicar um livro com as frases mais célebres apenas de filmes brasileiros. Do cinema mundial, ela destaca a frase de ...E o Vento Levou como a mais repetida desde a invenção do cinema, pelo menos nos EUA.

- Lá essa frase virou marcador de livro, está impressa em xícaras, em páginas de agenda - conta.

Entre as inúmeras lendas de bastidores do clássico americano, está a de que a famosa frase não estava planejada originalmente. O termo damn era considerado muito vulgar, até pesado, para ser dito no cinema em 1939. Atribui-se ao jornalista Paulo Francis a seguinte tradução da fala, que resume a idéia em bom português: "Francamente, querida, estou cagando e andando".

- A chacrinha da palavra
- Gigantes da seleção
- Não há rosas sem espinhos
- O lugar do lugar-comum

 
 
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