O humor de Guimarães Rosa
o Autor de Sagarana e Primeiras Estórias tinha uma maneira muito própria de brincar com o universo das palavras

Walnice Nogueira Galvão

A obra de Guimarães Rosa é daquelas em que o leitor menos espera encontrar humor. "Humor?!", dirá ele, ante a obra precedida pela reputação de difícil, até mesmo impenetrável, escondida por trás da linguagem rebarbativa e da sintaxe retorcida, coalhada de neologismos.

Todavia, é um engano. Não só o humor reponta por toda a obra de Rosa, aqui e ali, mesmo em meio à gravidade e à melancolia. Mas há também narrativas inteiramente burlescas ou satíricas, do começo ao fim.

Nesse sentido, examinaremos mais de perto dois momentos fortes, a fim de verificar o funcionamento dos mecanismos que produzem esses efeitos. O primeiro momento forte é dos mais sensacionais e se encontra logo no livro de estréia, Sagarana (1946). Trata-se de A volta do marido pródigo, em que o humor se observa desde o título, na paródia de um notório tema bíblico, portanto solene, que é a volta do filho pródigo, e não do marido. A paródia atinge uma bela parábola dos Evangelhos, procedente da boca do próprio Jesus Cristo.

Nesse relato picaresco, um tremendo mau-caráter, Lalino Salãthiel, invariavelmente se sai bem. Entre as coisas abomináveis que perpetra, Lalino vende a própria esposa por dinheiro e depois a recupera mediante tramóias. Um trickster, graças a sua lábia torna-se peão de uma intriga político-eleitoral, nos quadros da luta pelo poder entre coronéis do sertão.

Insolente e impertinente, sua esperteza visa à sobrevivência: Pedro Malazarte e Macunaíma são de sua laia. E apesar de suas péssimas qualidades, o embusteiro não passa de um pobre coitado, que se vê obrigado aos mais torpes estratagemas. O que, de certo modo, implica em sua absolvição pelo autor e, afinal, pelo leitor. Nestas páginas, Guimarães Rosa deixa imortalizado um de seus mais notáveis personagens.

Estórias

O segundo momento forte se encontra concentrado, vários livros adiante, em Primeiras estórias (1962), em que a veia cômica dá a nota. É quando entram em cena as "estórias", termo que Guimarães Rosa cunhou e pôs em circulação, opondo-o, como em inglês, a "história". Nessa veia, - sem ignorar outras tristes ou mesmo trágicas entre as quais se situam - são as mais interessantes, e num acúmulo que só se encontra neste volume. Algumas delas, cujo desenrolar depende de discussão de linguagem, e até de verbiagem, enveredam pelo nível metalinguístico.

A destacar, a predominância, só aparentemente fortuita, de crianças. Além da primeira e da última estórias, protagonizadas pelo Menino, também surgirão em outras. Em A menina de lá, Nhinhinha, que mal chega aos quatro anos, inventa palavras e profetiza, antes de morrer e virar santa. Em Pirlimpsiquice, os alunos do colégio interno criam um teatrinho, em que procedem a uma encenação, com espantosas conseqüências.

Em Nenhum, nenhuma, os olhos de um menino, sozinho numa fazenda misteriosa onde há um moço, uma moça, uma velhinha e um homem alto, tentam entender o que se passa. Em Partida do audaz navegante, crianças brincam, inventando enredos de imaginação desatada.

Em outras comparecem valentões. Famigerado é um relato engraçado de  rufiões sertanejos às voltas com esse vocábulo a eles dirigido, que, por ignorância, temem ser um insulto. Dispõem-se até a assassinar, imaginando conteúdos pejorativos que tentam formular aproximativamente: "...fasmisgerado...faz-me-gerado...falmisgeraldo...familhas-gerado". E só sossegam quando o apavorado interlocutor, para safar-se, distorce o significado da palavra, explicando que ela é sinônimo de importante, que merece louvor e respeito. Em "Os irmãos Dagobé", os façanhudos do vilarejo, todos de nome começando por D (notar que  de fato são corruptelas e que nenhum começa por D) - Damastor, Doricão, Dismundo e Derval -, fazem o velório de um dos seus, a quem vão sepultar.

Coerência e coesão

Os volumes de contos costumam perseguir coerência e coesão interna, obtendo-as de várias maneiras, seja em personagens que se repetem, seja nos mesmos lugares ou na mesma época. No caso de Primeiras estórias, o espaço e o tempo se mantêm, além da linguagem,  como sempre em nosso autor. As estórias na maioria se passam no espaço rural - sítio, fazenda, chácara - ou em lugarejos.

Mas há ainda outro elemento, nada desprezível, que confere unidade: é o perfil das personagens. O grosso da comparsaria é constituído por excêntricos, no sentido etimológico, ou seja, pessoas que estão fora da centralidade. Poderiam ser chamados também de desajustados ou excepcionais: aqueles que só inadequadamente seriam considerados normais.  E que devido a essa condição têm acesso a níveis de realidade a que o comum dos mortais não tem.

Tais limítrofes incluem a criança, o senil, o apaixonado, o insano, o insensato, o inconformista, o marginal, e até mesmo um extraterreste... mudo. Todos aqueles que poderíamos chamar de iluminados, de fora-das-convenções, de seres de exceção. Não convém dizer que são loucos, a não ser impropriamente, porque Guimarães Rosa já decretava nesse mesmo livro: "Ninguém é louco. Ou então, todos." (A terceira margem do rio).

Essas figuras fora de esquadro repontam, por exemplo, em Darandina, na qual um homem sobe numa palmeira e tira a roupa na praça central, sem explicações, para gáudio dos passantes, provocando jubiloso tumulto público na cidadezinha mineira.

Mas se reúnem e se concentram no extraordinário catálogo que delas faz Tarantão, meu patrão..., instaurando um cortejo eqüestre que parte em missão. Essa cavalgada dos insensatos segue o exemplo da Nau dos Insensatos, a Stultifera Navis, de que fala Foucault, na qual as autoridades confinavam os loucos e os deixavam à deriva. Aqui, o protagonista, o Velho, arrasta empós si até catorze deles em conta redonda, que inclui, conforme suas palavras, ele próprio mais o narrador e Deus: o ajudante de criminoso Sem-Medo, Felpudo, Curucutu, Cheira-Céu, Jiló, o cigano Pé-de-Moleque, Gouveia Barriga-Cheia, o vagabundo Corta-Pau, Bobo, João Paulino, Rapa-pé, um "por nome anônimo" e o preto Gorro-Pintado. A comitiva, sem objetivo, alvo ou rumo, sai da fazenda e acaba indo parar na vila, onde fica a casa da família do Velho, tudo resultando numa festa
de congraçamento.

As Primeiras estórias apresentam similaridades, não nos enredos - na variação dos quais nosso autor capricha, como sempre - mas na estrutura deles. Ou seja, todos têm acentuado suspense, e esse suspense às vezes é climático e às vezes anticlimático. Em alguns casos, e muito interessantes, o clímax é um anticlímax, com a construção intensificante do suspense sendo desmanchada, porque o que se aguardava não acontece, ao contrário, falha e frustra a expectativa do leitor. O que é muito apropriado para o tom jocoso que sustenta algumas das estórias. Demonstra-o Luas-de-mel, em que a ocorrência, tão comum no sertão, de um casamento por rapto, vai progressivamente erotizando os circunstantes, bem como a linguagem, de modo que a tragédia que se aguardava não sobrevém.

E tudo isso, quando não se esperava que Guimarães Rosa produzisse humor...


Walnice Nogueira Galvão é professora titular de Teoria Literária na USP e autora do livro Guimarães Rosa (Publifolha)

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