Intérpretes em tempo real
Profissionais da tradução simultânea vivem saias justas diplomáticas e dizem que, para trabalhar bem, o conhecimento de português é tão importante quanto o de idiomas estrangeiros

Alex Sander Alcântara

Nicole Kidman em A Intérprete: levando o papel do tradutor diplomático a extremos

Ewandro Magalhães Jr. trabalhava no Centro de Documentação e Informação da Câmara dos Deputados quando, em março de 1992, foi colocado no que parecia uma roubada.

No gabinete da presidência da Câmara, em visita ao Brasil, estava o príncipe de Edimburgo. Sua alteza só falava inglês e, no afogado da hora, ninguém pensava num tradutor. Na ausência de um profissional, alguém lembrou que Ewandro tinha fluência em inglês, alemão e italiano.

Ewandro suou. Foi ao encontro com o peso da responsabilidade. Passada a praxe de apresentações e amenidades, os convivas trocaram presentes. O presidente da Câmara entregou um livro sobre a Amazônia. Foi quando o príncipe retrucou:

- Oh, the rain forest. well, you mean, what was left of it, right? (Ah, a floresta tropical... quer dizer, o que sobrou dela, né?)

Constrangido, o intérprete empacou. Não sabia se devia traduzir a piada ao pé da letra, sendo honesto com os parlamentares que o convocaram, mesmo à custa de evidente mal-estar. Era claro, também, que a intenção do príncipe tampouco era a de criar embaraço aos brasileiros, que ante uma tradução literal se veriam vexados a corrigir a ignorância do europeu. Ali, pego no contrapé das possibilidades, Ewandro improvisou. Contentou-se com um singelo "obrigado, excelência", torcendo para ninguém ter entendido o original.

Ewandro havia passado no concurso de assistente administrativo em 1988, virou revisor de língua portuguesa no centro de documentação por oito meses, antes de viajar à Alemanha para fazer mestrado. Na volta, foi nomeado chefe do serviço de Relações Públicas da Câmara. Naquela tarde de improviso, no entanto, iniciaria nova carreira.

Plano de vôo

Sentados em cabines, profissionais como Ewandro usam fones de ouvido e são conhecidos pelo acúmulo de horas na função. Alguns têm mais de nove mil horas na bagagem. As semelhanças com pilotos de avião páram aí. Pela destreza de atuar no improviso, os intérpretes exibem a virtuosidade de outro tipo: o do bom repentista.

- O intérprete tem de ouvir e falar ao mesmo tempo, repetindo palavras e idéias que não são suas, sem perder o conteúdo, a intenção, o sentido, o ritmo e o tom da mensagem - define Ewandro.

Para ele, o tradutor que negligencia o próprio idioma português está mais propenso a cometer equívocos e corre mais risco de titubear na intermediação por pura falta de repertório.

- Tem gente que acha que, porque fala inglês, pode lançar-se no mercado. Não é bem assim. Primeiro, você deve ter domínio superior da sua própria língua -  diz Ewandro.

Nem é preciso ser brasileiro para perceber a importância que a versatilidade em português desempenha num ofício que se relaciona com estrangeiros de diferentes tipos, jargões e linguagens de áreas as mais específicas. Para o norte-americano David Page Haxton, radicado no Brasil desde a década de 80, a importância de ter desenvoltura e rico vocabulário em português é uma obrigação dos tradutores que atuam no Brasil.

Economista, David já acompanhou ministros como Antônio Palocci e Guido Mantega a eventos internacionais. Fala português sem sotaque.

- O sotaque estrangeiro nessa profissão é visto como marca positiva. Os que fixam residência no país preferem mantê-lo, para serem identificados como tal. Mas ao residir aqui e aprimorar sempre meu português, nada mais faço que minha obrigação.

Ofício ancestral

A tradução simultânea é ofício ancestral que chegou ao imaginário globalizado como testemunha anônima de fatos, personagens e gafes históricas. Foi assim, por exemplo, que o retrataram de forma satírica René Goscinny e Alberto Uderzo em Asterix e os Godos, em que um godo bilíngüe tem a difícil missão de intermediar os diálogos entre o druida gaulês Paronamix e os guerreiros alemães que o aprisionaram. Ou foi como o romantizaram no filme A Intérprete (2005), em que Nicole Kidman é a chave para a polícia desvendar um atentado na ONU.

A idealização em torno da atividade, no entanto, cede à realidade de uma profissionalização relativamente recente. Só com a fundação da ONU, em 1945, sentiu-se a necessidade de se formar profissionais para tal finalidade. No Brasil, os sindicatos ainda discutem a regulamentação da atividade.

A discussão é propositada. Afinal, é fina a linha entre o tradutor (que lida com a escrita estrangeira) e o intérprete (intermediador de pessoas que não falam a mesma língua). O discurso de um se dá no campo escrito. O do outro, no oral.  Neste, a situação de comunicação determina o tipo de interpretação a ser feita. As modalidades de interpretação são conhecidas no ramo como "consecutiva", "sussurrada" e "simultânea".

Na consecutiva, o tradutor está diretamente em contato com o interlocutor. Há pausas periódicas na fala, para que o intérprete faça a transposição do original (a língua-fonte ou de partida) para o idioma do ouvinte (língua-meta ou de chegada). É o caso de quem acompanha e recebe uma comitiva.

Já a "sussurrada" (whispering) é cada vez mais rara. Como o nome diz, é aquela mais próxima ao ouvido, em que a presença física do tradutor é discreta. E a simultânea é a que repete na língua de chegada palavra por palavra apresentada por alguém na língua de partida. Ela se dá, por exemplo, em cabines de palestras ou na transmissão do Oscar pela TV. A diferença é que, neste caso, o estrangeiro não faz pausas e o intérprete fala ao mesmo tempo e ritmo que ele.

Interpretação

A modalidade principal da simultânea é a interpretação de conferência. Os intérpretes trabalham quase sempre em dupla, isolados numa cabine com vidro, para permitir a visão do orador. Os parceiros de cabines, os "concabinos", aprendem a administrar uma comunicação silenciosa. A troca de informações se dá por escrito, mediante anotação de palavras-chave.

- A interpretação simultânea exige um tipo de aparelhagem eletrônica para evitar a sobreposição de vozes. Mas falar em simultânea é inapropriado porque sempre há um retardo mínimo entre o que é dito e o discurso produzido na interpretação - explica Ewandro Magalhães Jr.

Tropeço internacional

Ewandro acumula mais de 6 mil horas de cabine. Já ajudou a fundar a Associação de Intérpretes do Brasil (AIB). Agora, lançou Sua Majestade, o Intérprete (Parábola Editorial), primeiro livro do gênero no país.

Com tom coloquial, permeado por metáforas, o livro de Ewandro serve não só aos iniciados. Analisa os principais aspectos da tradução-interpretação, quebra alguns mitos e mexe nas feridas de uma profissão revestida de glamour.

Parte dessa imagem vem da proximidade com o poder. O livro de Ewandro mostra que a tradução simultânea é uma habilidade que requer controle emocional. Não basta ter um arsenal lingüístico de peso.

"Tem gente que acha que, porque fala inglês, pode se lançar no mercado. Não é bem assim. Primeiro, você tem de ter um domínio superior da sua própria língua" Ewandro Magalhães Jr. Intérprete na Câmara, autor de Sua Majestade, o Intérprete (Parábola)

Os intérpretes têm uma responsabilidade que ultrapassa as necessidades lingüísticas. Ficou conhecido, por exemplo, um incidente envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em visita oficial à Namíbia, na África, em 2003. Ao saudar o presidente local na chegada à capital do país, num discurso improvisado, Lula disse:

- Estou mais surpreso ainda porque quem chega à capital Windhoek não parece estar num país africano, nenhuma cidade é tão limpa e bonita.

Na hora, o intérprete do presidente, Sergio Xavier Ferreira, o interpelou:

- Desculpe, presidente, não estou entendendo.

Refeito, Lula refez a frase. O fato ressoou no Brasil porque havia jornalistas brasileiros presentes, mas quase não houve repercussão internacional, por causa da providencial intervenção de Ferreira.

Humor e entonação

Segundo David Page Haxton, o medo de um intérprete não é do erro em si nem o risco de não captar o humor e a entonação dos oradores. O maior temor seria o de não conseguir avançar na interpretação, quando um palestrante que não é de origem anglo-saxônica resolve falar um outro idioma, sem dominá-lo.

- Eu fazia a interpretação simultânea de um coreano que falava um inglês ininteligível, mas insistia em falar nesse
idioma - diz David.

Em situações assim, por vezes chegam às mãos do intérprete as anotações que serão comentadas na palestra. Muitos pedem tal material com antecedência, para familiarizar-se com a terminologia usada. Ou conversam com os oradores, antes da intervenção que vão traduzir. No episódio, David tinha a cópia do que o oriental ia dizer em inglês.

- Mas o cara fazia digressões em coreano e fugia ao script. A saída foi ler a palestra no papel, independentemente do que ele falava. A inteligibilidade da apresentação estava garantida, mas o desafio era manter a sincronia entre a fala dele e o ritmo da minha interpretação - conta.

O que há duas décadas diverte David na função são os encontros para refeições. Mesmo com fome, um intérprete só abre a boca na hora da tradução.

- Enquanto os outros se deliciam, o intérprete, concentrado no trabalho, recusa as iguarias. A clareza ficaria comprometida com a boca cheia - diz, rindo.

Atualidade

Com a internet, em particular o site YouTube, de vídeos on-line, ficou mais fácil para o tradutor ver cenas de eventos de que uma personalidade estrangeira participou. Com isso, estuda sotaques, entonações e a relação entre gestos e fala.

A formação no meio, não raro, é feita de momentos assim, acidentados. O pernambucano Ayrton Farias aprendeu inglês na escola, espanhol sozinho e faz interpretação simultânea desde o fim da década de 80, em inglês, espanhol e italiano. Agora, estuda chinês e japonês. Num evento em maio, no Rio, completou 1,5 mil dias de cabine, cerca de 9 mil horas.

"Professor" Ayrton, como é conhecido no meio, diz não se envaidecer pelos "ilustres" aos quais serviu como intérprete, como presidentes, ministros e príncipes. Mas se orgulha de um nome em particular: o lingüista Noam Chomsky.

- É a personalidade mais simples que já conheci. Grandes homens têm o ego inversamente proporcional às suas grandezas interiores, que dedicam totalmente ao bem dos outros. Quanto maiores, mais simples são - diz.

Humanização

Em maio, o intérprete Ayrton Farias completou 1.500 dias de cabine, num total de nove mil horas traduzindo eventos no Rio de Janeiro

O livro de Ewandro Magalhães Jr. humaniza a prática da interpretação. Nele, o profissional é um elo da comunicação que pode cometer erros, mas deve seguir um estrito comportamento ético, para não moldar a fala dos outros à sua imagem e semelhança. Ewandro condena um vício que considera freqüente: a "vaidade" do intérprete de imaginar que o público de uma palestra vai apreciar ou julgar seu trabalho.

Para ele, entender a contemporaneidade da informação é fundamental. O importante é formar exímios comunicadores. Significa dizer, segundo Ewandro, citando Sergio Viaggio, recrutador de intérpretes na ONU, que o bom intérprete pode tirar, botar o pé no freio, desacelerar, dizer uma coisa com 10% menos de palavras, mas de maneira natural, para que ela saia espontânea e dê conforto a quem está ouvindo.



Confira

Ewandro Magalhães Jr.
Sua Majestade, o Intérprete - O Fascinante Mundo da Tradução Simultânea. Parábola Editorial.
São Paulo, 2007

O desafio do mercado

Atividade ainda não regulamentada cria obstáculos aos profissionais

A profissão de intérprete se movimenta num mercado restrito, mas com escala de aplicação. Na pesquisa de pós-graduação (lato sensu) "O Mercado Brasileiro de Interpretação de Conferências e seu ambiente de negócios", o intérprete Ayrton Farias traçou um diagnóstico do ofício no país.

Segundo a pesquisa, o intérprete de conferência ocuparia o topo de uma pirâmide invertida. Os profissionais em geral começam como professores de idiomas e, conseqüência natural, se dedicam à tradução até atuarem em interpretação simultânea.

A profissão é reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 1988, mas não regulamentada. Há poucos cursos de nível superior na América Latina. No país, a PUC-SP oferece curso seqüencial para intérpretes em inglês, de dois anos. Há outros, como o da PUC-RJ. Mas o de São Paulo é o único recomendado pela AIIC (Associação Internacional dos Intérpretes de Conferência).

O mercado aqui se concentra em São Paulo, Rio e Brasília. Mais de 90% dos intérpretes atuam em inglês-português. A regulamentação é bandeira da categoria, mas não é consenso nem entre os associados das principais entidades, como o Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores) e a Abrates (Associação Brasileira de Tradutores).

- Quem é contra pergunta como conseguir regulamentação para todas as línguas e como ficam os profissionais que já estão na profissão há anos - explica Sheyla Barretto de Carvalho, presidente da Abrates.

A Abrates tem mais de 500 associados. Faz credenciamento anual, espécie de selo de qualidade dos profissionais. Organiza cursos e debates, traça diagnósticos da profissão, como o de legendagem de filmes e de TV: algumas são em tempo real (a "tecla sap" do Jornal Nacional, por exemplo).

A regulamentação daria maior proteção aos profissionais. A presidente do Sintra, a argentina Elizabeth Thompson, acredita que o sindicato serve de parâmetro para os cerca de 800 associados e disponibiliza tabelas de preços.

- Lutar pela regulamentação não é fácil. Nem todos têm preparação específica e os que têm experiência, mas não possuem diploma, também são contra - diz Elizabeth.

Para começar na profissão

Não basta saber línguas para ser tradutor ou intérprete: é preciso fazer cursos específicos para aprender a teoria e a técnica da tradução e da interpretação em tempo real.

Segundo o Sindicato Nacional dos Tradutores (www.sintra.org.br), os trabalhadores do ramo em geral deixam seus currículos, contatos e qualificações em escolas estrangeiras; consulados; empresas que mais provavelmente precisem de traduções e em juntas comerciais.

Os sindicatos do ramo sugerem também que os intérpretes e tradutores em geral formem seus próprios grupos de trabalho, com estudantes de áreas que possam incluir a tradução em suas atividades (publicidade, propaganda, marketing etc.), para criar "escritórios modelos". Com isso, podem prestar serviços de tradução a empresas privadas; anunciar seu trabalho em sites específicos para o mercado de tradução e entregar seus currículos em agências de tradução e em editoras. (ASA)

- O coco e a cuca
- A dança do artigo
- A chacrinha da palavra
- A retórica da conversa

MA. CRISTINA P. PEREIRA
EDUCADORA - PORTO ALEGRE/RS

E, além disso, não podemos esquecer os intérpretes de língua de sinais que também são intérpretes de língua portuguesa, pois interpretam para pessoas ouvintes. Saibam mais em: http://interpretedelinguadesinais.blogspot.com/
[ postado em 17.08.2009 ]
 
 
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