Corrupto que é corrupto não usa telefone, que escuta telefônica bem-feita pega bagre e bagrinho. Mas quando usa, esbanja curiosos exemplos de criatividade bandida. A constatação é da Polícia Federal: recentes conversas grampeadas nas mais diversas ações trouxeram à tona uma modalidade de linguagem própria da contravenção, antes reservada ao submundo do crime e do meio policial.
Diálogos cifrados entre juízes, traficantes, assassinos e deputados revelaram pérolas do tipo "entregar o travesseiro" (pagamento de corrupção), "gastos com a reforma da igreja" (propina), além de palavras descontextualizadas, como "tios" (pessoas corrompidas) e "bingo" (morte confirmada), que enriquecem o vernáculo criado diariamente para esconder ações ilícitas do Brasil atual.
Ao contrário de muitas gírias, que podem passar de geração para geração, as criadas no calor do crime costumam ter vida curta, ao sabor da existência de uma quadrilha.
Um membro da Polícia Federal que já trabalhou em ações nacionais e prefere não se identificar garante que as expressões mudam muito e são muito específicas, variando de acordo com a região. Quando uma quadrilha cai, aquela linguagem desaparece com ela, explica o informante. A criatividade seria um pré-requisito para a delinqüência de colarinho branco.
Os especialistas não têm ainda uma descrição unânime do fenômeno. Para o professor Ataliba Teixeira de Castilho, da USP, a maioria das novas expressões cifradas pode ser identificada como metáfora, já que transferem o sentido de um termo para um outro. Na Operação Vampiro (fraudes na licitação de hemoderivados no Ministério da Saúde, em 2004), os partidos descritos nas conversas telefônicas foram chamados de "condomínio" e os deputados, "inquilinos" ou "carros".
Razões das palavras
Segundo Castilho, que é organizador da Gramática do Português Culto Falado no Brasil (Ed. Unicamp), a primeira do gênero, mais interessante que classificar as expressões seria procurar entender as escolhas das palavras que as integram. No caso de "entregar o travesseiro" (o mesmo que "pagar a propina" - veja quadro na página 25), flagrada na Operação Têmis (sobre a venda de sentenças por juízes) em maio, ele arrisca uma provável relação: "durma tranqüilo que o dinheiro já foi entregue". Em expressão equivalente, "custo da reforma da igreja", Ataliba destaca a ironia de se propor reformar, à bandida, uma instituição oficialmente aceita pela sociedade.
Tais expressões seriam antes uma modalidade de gíria, na opinião do lingüista Francisco Platão Savioli, autor de Gramática em 44 Lições (Ática), professor aposentado da USP e coordenador de gramática, texto e redação do Curso Anglo Vestibulares. Para ele, a linguagem cifrada tem a função de impedir o entendimento do sentido produzido, daí a aproximação com a gíria.
O diálogo em códigos também produz, segundo Platão, um dos efeitos do eufemismo, que é o disfarce e a dissimulação. "Eufemismo" vem do grego euphemismós. Segundo Platão, é a atenuação da idéia por meio do prefixo bom (eu) + o radical da mesma família phemí, que significa manifestar.
O lingüista considera que a palavra ou expressão atenuadora, que disfarça outra considerada mais deselegante ou comprometedora, é usada em duas situações: por polidez (dizer "casa de repouso" em vez de "asilo" para não ofender uma pessoa idosa) ou por dissimulação (para esconder as próprias intenções). Neste caso é que se enquadram expressões como "entregar o travesseiro".
- Há um parentesco grande desse tipo de expressão com a gíria e o eufemismo, ambos podem ser usados por um grupo para excluir os não-iniciados em seu repertório - diz Platão.
Ruído na comunicação
Para alguns especialistas, a linguagem criptológica que tem aparecido nos grampos da PF pode até lembrar, mas não necessariamente ser considerada uma expressão de gíria ou de metáfora. Pelo menos essa é a opinião do professor Dino Pretti, titular de Língua Portuguesa na PUC de São Paulo. Ele lembra que gíria é linguagem falada por grupos, como é o caso de estudantes, médicos, juízes. O grupo formado pelos bandidos é menor, seu repertório opera no alcance dos membros da mesma quadrilha. Por ter, portanto, códigos que se aplicam a casos isolados, tendem a não expandir vocabulário no conjunto maior formado por todas as quadrilhas captadas pelos grampos da PF.
O lexicólogo Francisco da Silva Borba, autor de Dicionário de Português Contemporâneo (Unesp), concorda. Diz que esses termos e expressões só seriam aceitos como gírias se fossem mais divulgados, a ponto de, naturalmente, começarem a ser adotados na linguagem coloquial.
Seja qual for a classificação técnica dos códigos da bandidagem, no entanto, nem sempre a linguagem codificada cumpre o papel de esconder o verdadeiro significado de uma conversa. Nas gravações captadas pela PF de Goiás na Operação Diamante, em 2002, os códigos só complicaram a vida bandida.
Que caminhão?
A ação encontrou provas que incriminaram o ex-garimpeiro Leonardo Dias Mendonça, envolvido com tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e troca de influência. Numa ligação com um outro envolvido, Leonardo avisava que "o caminhão com mogno" já estava a caminho, menção a um carregamento de cocaína que seria entregue na região por meio de um jatinho. O colega de esquema furtivo não entendeu:
- Que caminhão?
- O caminhão, ora.
- Como assim? A gente não falou de caminhão até agora...
- Aquele, aquele, aquele que avoa!
O episódio ganhou destaque no anedotário dos agentes federais.
Trapalhadas geradas com códigos mal transmitidos entre os suspeitos, aliás, são muito comuns, mas boa pista para a percepção do grau de profissionalismo marginal, segundo Cláudio Avelar, presidente do Sindicato dos Policiais Federais no Distrito Federal (Sindipol-DF) e policial investigativo há mais de 23 anos.
- As grandes quadrilhas não fazem nenhum acerto pelo telefone. Os grupos que usam esse recurso revelam sua ignorância e falta de organização. Isso até facilita o trabalho da polícia - comenta.
Pelo telefone
Às vezes a desatenção é tanta que os grampeados combinam os códigos - acredite - pelo próprio telefone. Durante as investigações da Operação Chacal, em 2004, que investigou a suposta espionagem da empresa Kroll contra a Telecom Itália, a Polícia Federal grampeou uma conversa entre Thiago Verdial - acusado de ser um espião de escutas telefônicas, um "araponga" - e o próprio pai. Na conversa, Verdial suspeitava que seu telefone estava sendo escutado pela polícia:
- Pai, vou comprar outro telefone, mas não vou comprar no meu nome. Passa o seu CPF.
Com o número do documento à mão, a polícia localizou a nova linha telefônica e continuou o trabalho do ponto em que Verdial tentava despistá-la.
Para realizar o trabalho de análise da escuta, os policiais envolvidos normalmente já trabalharam em ações na rua. Só assim para compreender expressões que só saem da boca de quem quer esconder algo da polícia. Em geral, é preciso ser agente da mesma região em que uma dada quadrilha atua, já que há muito regionalismo no palavreado gatuno do Brasil. Apesar dessas indicações, é necessária ainda muita imaginação para interpretar as falas.
- Não há critérios específicos para desvendar as conversas. Junta-se a experiência de rua a um pouco de 'achômetro' também - explica Avelar.
Mas nem sempre as equipes de análise da Polícia Federal têm tanto trabalho para entender certas frases. Na Operação Navalha, que apontou a construtora Gautama como a beneficiária de fraudes em licitações de obras públicas, ocorreu um caso do gênero. O diretor da Gautama no Maranhão, Vicente Vasconcelos Coni, prometia entregar algumas "cocadas" para as autoridades locais, em troca de certos benefícios. A PF pensou que era conversa para boi dormir. Não era. Pelo menos neste caso, "entregar as cocadas" queria dizer isso mesmo.
A LINGUAGEM DA MARACUTAIA |
| OPERAÇÃO | O QUE É | EXPRESSÕES | TRADUÇÃO |
Têmis
| Ação que desmantelou, em maio, suposta quadrilha que negociava a venda de sentenças judiciais com o objetivo de fraudar a Receita Federal.
| Entregar o travesseiro
Custo da reforma da igreja
Galo
| Entregar a propina.
O valor da proprina.
Acredita-se que seja o valor do galo no jogo do bicho e seria o valor cifrado de eventual propina numa determinada circunstância. |
| Galácticos | Quadrilha desviava dinheiro de contas bancárias pela internet, em 2004.
| Conseguiu a Antártica?
Conseguiu a Skol?
| Conseguir cartão do banco Caixa Econômica Federal (que é azul, assim como o rótulo da cerveja).
Conseguir cartão do Banco do Brasil (que é amarelo). |
Operação Vampiro
| Esquema entre empresários, lobistas e servidores, acusados de manipular compras de medicamentos para o Ministério da Saúde, em 2004.
| Condomínio
Inquilino ou carro
| Partido
Deputado |
| Furacão | Combate a quadrilhas dos bingos e caça-níqueis do Rio lideradas por Fernando Ignácio e Rogério Andrade, em 2006.
| Bingo
| A forma como os assassinos da quadrilha anunciavam um assassinato consumado. |
| Gladiador | Ação deflagrada em abril contra acusados de envolvimento com exploração de jogos ilegais, corrupção de agentes públicos, tráfico de influência e receptação. | Tios | Nome dado aos contraventores que recebiam as propinas. |