O rapentista do universo infantil
Misturando hip hop com o bom humor da MPB, o compositor fala de seu trabalho para as crianças e de seu premiado livro infantil Um Garoto Chamado Rorbeto.

Guilherme Bryan

O apelido é em si pleno de pomposidade lingüística, acentuada por iniciais maiúsculas até em seu artigo definido, sem vírgula entre ele e o nome próprio. Aos 31 anos, sete discos no currículo, o rapentista Gabriel O Pensador vive um surpreendente alento literário. Escritor bissexto, autor de um discreto livro com poemas e textos anteriores à carreira musical, chegou à fama literária com o premiado Um Garoto Chamado Rorbeto (Cosac Naify, 2005), que lhe deu o Jabuti (o mais importante da literatura nacional) de melhor infantil do ano passado e deve virar peça de teatro este ano.

Historicamente, Gabriel é considerado pelos mais ortodoxos (ou estereotipadores, como o compositor avalia) uma anomalia no universo dos rappers, não só por ser branco de classe média alta, filho de Belisa Ribeiro, assessora atuante no governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Fez carreira, para melindre de seus pares no gênero, com a herética mania de combinar as letras com clichês de cunho social e político, típicos do universo rap, com o bom humor que afirma vir de sambistas como Moreira da Silva.

A primeira vez que se ouviu de fato falar em Gabriel O Pensador foi em 1992, quando o próprio governo Collor, num dosarroubos de seu mandato, tentou proibir as rádios de tocarem Tô Feliz (Matei o presidente). Desde então, tem sido uma referência da ambigüidade brasileira, da elite alma negra, da periferia society dos manos de butique, mas criativa e talentosa, como poucos no ramo.

A seguir, ele conta como foi escrever seus dois livros, seus métodos de composição e sua ligação com o universo hip hop e com a música brasileira. Revela ainda que está se dedicando agora a um CD de músicas infantis - criado a partir das brincadeiras com seu filho mais velho -, que deve ser lançado este ano.

A maioria das minhas letras fiz gravando o áudio no improviso. A brincadeira de criar palavras enquanto as falo fazia com que a letra nascesse com uma métrica um pouco mais ousada do que se eu tivesse escrito primeiro num papel.

Língua Portuguesa - Como surgiu a idéia de fazer o livro infantil?

Gabriel O Pensador - A idéia foi a mais espontânea possível. No período entre um disco e outro, ou até quando estou compondo para gravar um disco, faço algumas coisas que não viram música, não publico ou não termino. Há contos, poemas e exercícios de escrita. A historinha do Rorbeto pintou sem nenhum planejamento. Terminei o texto em um mês mais ou menos, gostei e já quis transformá-lo em livro.

Ao escrevê-lo, você se preocupou com a linguagem mais adequada às crianças?

Foi uma preocupação natural. Já saquei no início que era uma história para crianças. Em 2002, eu tinha escrito o começo de uma história em prosa, que, teoricamente, viraria um livro infantil ou juvenil. O personagem era um pai com saudades do filho. Foi a primeira vez que escrevi para criança, mas era apenas o começo de uma prosa, que está guardada comigo. Então tinha o discernimento de que, se é para criança, a linguagem tem de ser outra. No 'Rorbeto', que é uma historinha em forma de poesia, eu procurei ser bem claro no uso de uma linguagem mais simples. Tendência que costumo ter nas letras também, de evitar palavras desconhecidas ou difíceis. Minhas músicas, apesar de não serem para crianças, têm abrangência no repertório.

Quais as suas preocupações ao escrever para crianças?

Não há regras. A arte é livre e qualquer um pode entrar no clube de escritores infantis. Não é muito complicado achar o tom certo. A linguagem não é o mais difícil. Lógico que é importantíssima, e eu sou um cara que me preocupo muito com isso. Mas o maior desafio é ter uma boa idéia e saber passá-la às crianças. A preocupação maior tem de ser em encontrar um conteúdo legal, em vez de fazer uma coisa vazia de conteúdo, que pode até ter umas ilustrações bonitinhas, mas parece estar enrolando o leitor.

O garoto do livro foi registrado com erro de digitação, por ter pai analfabeto, que tem um dedo a mais. Houve preocupação em discutir o idioma na história?

Sim. O livro tem dois temas centrais: a diferença física e a alfabetização. O pai analfabeto e a brincadeira com o nome foi o que veio de cara no poema, em que as rimas foram me conduzindo e fazendo as coisas acontecerem. Mas o que realmente me emociona nele é o amor entre os pais e os filhos.

Como pai de duas crianças, qual sua opinião sobre o ensino da língua no Brasil?

Acho preocupante, porque por muita gente bem letrada vemos alguns erros muito repetidos, como "para mim fazer", o que, em determinadas situações cotidianas e em certas camadas da população, é muito comum. Isso poderia ser mais trabalhado na televisão e na mídia, por exemplo. Eu não sei dizer quanto estão batalhando contra isso nas escolas, mas imagino que, como sempre, os professores têm aquela luta árdua. Ganham mal e têm de enfrentar vários turnos de trabalho e zilhares de alunos. Por isso, fica muito difícil combater uma coisa que um moleque fala em casa e, às vezes, está até nas músicas que ele escuta. Seria legal ver a galera com um linguajar mais amplo e adequado a cada situação da vida. Nunca será, é claro, um português corretíssimo e nem é para ser. As regras vão mudando e ficando ultrapassadas. Se forem exigir que se respeite todas elas, então eu e o país também vamos falar e escrever errado.

Vencer o Jabuti foi uma surpresa? O que esse prêmio representa na sua carreira?

Foi uma surpresa, claro. Ser selecionado entre os dez da categoria no Jabuti, para mim, já seria ótimo. Agora, como sempre gostei de escrever, acho que o prêmio é um bom incentivo. Apesar de meus textos e minhas letras terem, para mim, a mesma importância e provocarem o mesmo tipo de prazer, na prática, os textos ficavam em segundo plano, uma vez que a minha profissão é a música. Então, o prêmio mostra que posso dar um pouquinho mais de atenção a esse prazer de escrever e ter uma responsabilidade maior de caprichar, por exemplo, nos contos que estou escrevendo agora.

O prêmio lhe trouxe mais respeito?

Nunca me senti desrespeitado. Meu primeiro livro, Diário Noturno, foi recebido com muito carinho. Mas acho que, enquanto eu tentava mostrar que aquilo era feito com a mesma intensidade e identificação que tenho na música, ficava um pouco a sensação de que era apenas hobby de um cantor. Na primeira reunião que tive com a editora sobre o Rorbeto, fiz questão de dizer que queria dar uma atenção bem especial ao livro e não simplesmente publicá-lo.

No Diário Noturno, você coletou seus textos antigos, poemas e redações escolares, principalmente. Por quê?

Esse livro foi feito sem nenhum rigor com a qualidade dos textos e da linguagem. Não é uma seleção de melhores textos. Escolhi-os de acordo com o significado que tinham para mim e para ilustrar a trajetória de um garoto que gostava de escrever desde cedo. É algo bem descompromissado. Ao relê-los, o que me chamou a atenção foi como sempre fui meio maluco (risos), de mandar carta para jornal e ter vontade de ser ouvido e de me expressar. Comecei a me lembrar de histórias, como a de fazer uma faixa contra o racismo e levar para o Maracanã. Então, o livro foi também um pouco o resgate dessas lembranças.

Em suas músicas, você segue algum método ao compor?

Não. No início da carreira, primeiro fazia a letra e só depois escolhia um estilo de batida. Nos últimos discos, porém, comecei a curtir a inversão desse processo, fazer primeiro as batidas e elas me levarem a certa atmosfera para a letra, dando sugestões de algum assunto ou emoção. No meu penúltimo disco de estúdio, Seja Sempre o Mesmo, Mas Não Seja Você Mesmo, por exemplo, ouvi as batidas que ganhei de um produtor norte-americano e fiz as letras embalado por aqueles sons, o que me trouxe novas métricas. A maioria das minhas letras fiz gravando o áudio no improviso. A brincadeira de criar palavras enquanto as falo fazia com que a letra nascesse com uma métrica um pouco mais ousada do que se eu tivesse escrito primeiro num papel. Geralmente, eram músicas sem tema e com certa abstração. Depois é que um assunto surgia. Mas já houve casos em que eu pensei no tema e fiz, por exemplo, uma letra sobre a saúde pública ou sobre a escola. Em outros momentos, era o que o Affonso Romano de Sant'Anna chamou de "palavra puxa palavra". No Rorbeto foi assim também. A rima vai sugerindo palavras, que vão sugerindo a história. Enfim, o texto surge a partir de palavras e seus fonemas.

Teve alguma letra que surgiu a partir de uma palavra?

Teve (risos). Eu sonhei com uma palavra, que nem me lembro exatamente qual foi. Mas que me levou à música Porca Miséria, que está no disco Nádegas a Declarar. Foi uma brincadeira com a expressão "encher lingüiça". Acabei falando das comidas típicas de cada estado do Brasil e criei um refrão politizado: "Eu não como porco! Eu como farelo! / Os porcos me comeram de verde e amarelo! / Sujaram meu chiqueiro! Fizeram porcaria! Limparam meu dinheiro e a barriga tá vazia". Há um pouco de protesto, mas é uma brincadeira com palavras. 

O universo dos repentistas é muito rico, pois há uma métrica que prende o rimador muito mais do que quando a gente resolve fazer um improviso de rap. Os repentistas têm toda uma estrutura que precisam seguir. Qualquer comparação com eles é um elogio.

Qual a razão de centrar as letras de seus raps em crônicas e críticas sociais?

Em apenas alguns casos eu parei e pensei friamente sobre o tema. No geral, o processo é muito mais emocional. Algumas letras são realmente crônicas e fortes em termos de crítica social. Estão nesse caso Até Quando? e Pátria Que Me Pariu, as quais eu não parei para pensar. No caso de Pátria Que Me Pariu, que é a crônica de um garoto abandonado num terreno baldio, porque a mãe prostituta não conseguiu fazer o aborto, e em que trato do Brasil que abandona suas crianças, eu estava na rua e fiquei louco quando comecei a pirar na emoção dessa história. Não foi nenhum pouco racional.



Assim também ocorreu com a escolha de seu nome artístico?

Até brinco, dizendo que esse nome que inventei, Gabriel O Pensador, leva para o lado do pensamento dentro da música, só que, na verdade, o meu trabalho é muito mais emocional, antes de eu organizar as idéias. Às vezes, tenho arroubos de inspiração em que saem trechos de letras e coisas incompletas que vou guardando no computador. Aí, quando ia gravar ou escrever uma letra, principalmente nos últimos discos, eu lembrava que tinha ali algo relacionado, buscava e tinha apenas o trabalho de quebra-cabeça, de montagem e edição de texto.

Você prepara agora um CD infantil. Essa sua maneira de compor foi levada para as novas canções?

Estou gravando um disco infantil que deve resultar em dois DVDs, um com animações e outro para o meu público habitual, a partir do qual vou basear uma nova turnê. Nesse trabalho infantil, as músicas foram feitas a partir de brincadeiras com meu filho mais velho, Tom, e um pouco inspiradas nele. Foi a partir dessas brincadeiras que resolvi fazer um disco. Eu já tinha ouvido sugestões de gravar para crianças, mas nunca tinha me animado. Surpreendentemente, as crianças gostaram dos meus discos desde o primeiro. Mas agora, de repente, eu curti a idéia e comecei o disco há uns bons meses, e deve ser lançado no segundo semestre.

Você sentiu muita diferença entre compor para adultos e para crianças?

Há diferenças, que são para mim difíceis de definir. Acho que está no astral que tem esse disco infantil. Há nele uma carga muito menor de preocupação e de estresse, porque, às vezes, fazer a seleção do que vai entrar em cada disco estressa um pouco. Procuro manter o ar lúdico até na hora de compor. Por isso, haverá brincadeiras com ritmos. Nem todas as músicas são rap. Apesar do capricho também estar presente, eu estou fazendo esse disco com um espírito muito mais de curtição com os amigos. Está sendo muito diferente e acho que vai me servir como lição. De agora em diante, vou fazer o possível para não me estressar e entrar em muita paranóia.

Affonso Romano de Sant'Anna definiu você como um "rapentista", uma mistura de rapper e repentista. Você concorda?

Sou o maior fã dos repentistas, que são muito ágeis com a palavra e com as idéias. Têm algumas que até emocionam. É um universo muito rico, pois há uma métrica que prende o rimador muito mais do que quando a gente resolve fazer um improviso de rap. Os repentistas têm toda uma estrutura que precisam seguir. Então, qualquer comparação com eles é um elogio. Às vezes, paro para ouvir CDs de repentistas e fico sempre curtindo, até porque há um vocabulário diferente, seja do Sul ou do Nordeste, com um pouco da cultura do campo, que eu, por ser da cidade, não conheço tanto.

Com relação ao rap, no início da sua carreira, chamava a atenção o fato de você ser um artista branco, de classe média alta. Você sentiu algum tipo de pressão?

Acho que houve mais uma curiosidade para saber quem era o filho de jornalista que vinha com uma linguagem diferente da de quem, normalmente, fazia rap, que era da favela. Não me senti criticado, nem excluído, porque os rappers mesmo me receberam bem. Talvez a imprensa, na época, tenha tentado alimentar um pouco o contraste entre o Gabriel e o que se espera do estereótipo do rap. Nunca me preocupei muito com isso.

Mas você utiliza a linguagem dos rappers?

Lógico que fui influenciado pelo hip hop, tanto que escolhi a linguagem do rap como a minha forma de fazer música, mas minha linguagem e o meu jeito de falar e até de me vestir não é igual ao da maioria dos rappers. Eu ouço muito Bob Marley, Raul Seixas, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Legião Urbana, Titãs, Blitz e Ultraje a Rigor. Sempre misturei, no meu trabalho, influências como essas e até do samba, caso da irreverência de um Moreira da Silva. Os rappers, geralmente, não são muito bem-humorados. Já eu uso o humor até como forma de protesto. Acho que o rap tem as suas linguagens, as suas gírias. Cada tribo tem as suas, mas eu uso a linguagem de uma maneira mais livre. Procuro pegar o que tem de bom em cada estilo.

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