A dupla vida de Chico
Compositor descreve seu processo de criação e diz que personagens de seus romances são como temas de sua música


Por Josué Machado

Chico flutua no campo de futebol, a bola colada aos pés, como se reencarnasse Pagão, o refinado centro-avante que jogou ao lado de Pelé antes que surgisse Coutinho. Por alguns toques e deslocamentos, lembra outro atacante que admira, Hidegkuti, da magnífica seleção húngara de 1954. E em certos momentos, por alguns toques e passes sutis, poderia ser confundido ora com Zico, ora com Ronaldinho Gaúcho.

São coisas do futebol e da história do futebol, uma das paixões a que Chico se entrega três vezes por semana, sempre que possível. Almoça frugalmente em seu apartamento no Leblon e segue com o amigo, produtor e escudeiro, Vinicius França, para seu campinho no Recreio dos Bandeirantes, quando está no Rio. Quando não está, procura um campo para matar a insopitável fome de bola.

Pois o futebol que Chico gostaria de jogar, com o tempero desses craques históricos e lampejos de Pelé, lembra sempre o refinamento e a sutileza das letras de suas canções, essas, sim, de craque consumado. O maior dos craques.

Tal habilidade, sutileza e refinamento aparecem de novo no recém-lançado disco, Carioca, que pode ser acompanhado do DVD Reconstrução, sobre os bastidores da gravação. Seu disco anterior, As Cidades, é de 1998. Entre um e outro disco, lançou em 2003 o romance Budapeste, depois de ter escrito Estorvo, Benjamim e algumas peças e musicais.

É nesse campo, o artístico, que ele de fato desliza suave, às vezes flutua, magistral como ninguém. Esse é seu melhor campo. Nele circula feliz e se move com facilidade, apesar das agruras da criação. Move-se com tanta facilidade que, pelos resultados, nem parece ter tido o trabalho exaustivo de depuração que confessa ter. Trabalho de pesquisa, de mergulho interior, da busca permanente da melhor forma: "... reescrevo tudo inúmeras vezes". É de seu trabalho, de sua maneira de escrever e de suas preocupações que fala nesta entrevista.

Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio em junho de 1943 e passou a juventude em São Paulo, depois de uma estada e estudos em Roma, quando garoto, levado pela família: o pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, foi adido cultural e professor em Roma em 1954 e 1955.

Em São Paulo, cursou colégios da cidade e o primeiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi em São Paulo também que se iniciou musicalmente ao participar dos festivais da década de 60. Era conhecido como "carioca", porque passava as férias no Rio, na casa de parentes, e tinha (e tem) sotaque carioquês. É o Rio que homenageia com seu último disco. Não só o Rio da zona sul, que sempre freqüentou e onde mora, mas o da periferia. O Rio humilde pouco conhecido dos que visitam a cidade, que talvez continue maravilhosa. O Rio que não está nos mapas turísticos.

Língua - Desde o lançamento de seu disco anterior, você voltou a ter contato com o público em shows e, agora, no novo trabalho. O jovem de hoje recebe bem os artistas de sua geração?

Chico - Muita coisa mudou.

As pessoas mais velhas relacionam as canções com momentos da própria vida, com fatos da época. Festivais, perseguições políticas, diferenças entre tendências musicais. Para os jovens, isso não existe. Um dia um deles disse que gostava muito de uma de minhas canções, Com Açúcar, com Afeto, que já tem 40 anos! Tenho a impressão de que para a maioria deles sou um músico de um passado talvez sem nuances.

Mas eles gostam das músicas.

A maioria gosta. E olha que em certo momento já fui considerado completamente ultrapassado por alguns. Depois o interesse voltou. Pode ser que daqui a algum tempo percam de novo o interesse. Mas eu sou teimoso. E, a esta altura, não preciso me preocupar com o sucesso imediato.

Você ficou famoso como músico, letrista. De vez em quando pára e dedica-se a livros. O que o leva a uma coisa e outra? São dois Chicos?

Comecei a escrever Estorvo após mais de um ano sem conseguir trabalhar com música. Provavelmente, o livro já estava se escrevendo desde algum tempo na minha cabeça. Imagino que a cabeça esteja sempre a trabalhar, mesmo ou sobretudo em períodos de aparente bloqueio criativo. Estorvo trata da questão da linguagem, da palavra. Resulta um pouco da minha curiosidade pela palavra, pela linguagem.

Nos tempos de escola, você já desenvolvia essa curiosidade? Interessava-se muito pelo idioma? Estudava além das obrigações escolares?

Sim. Mas nunca estudei além das obrigações escolares. Sempre tive bons professores e não fui péssimo aluno.

E agora? Consulta dicionários ou livros de referência sobre o idioma quando escreve?

Sempre. Consulto o Caldas Aulete, o Houaiss, o Dicionário de Verbos e Regimes e o de Regimes de Substantivos e Adjetivos, ambos de Francisco Fernandes, e o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.

E o Aurélio, de seu tio, não?

(Rindo) Também, claro.

Tem alguma dificuldade com a língua? Grafia, regência, concordância...?

Não tenho especial dificuldade, mesmo porque me socorro sempre dos dicionários. Mas um deslize ou outro sempre aparece, quando da revisão de meus livros.

Suas músicas e livros não tomam liberdade com a língua oficial. A exceção talvez seja "quem te viu, quem te vê", pronome paulistês descontraído misturado com "quem não a conhece...", "quem jamais a esquece...". E depois, "Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe, de dourado lhe vestia...". "Te" paulista e "lhe" carioca. Compôs assim só porque lhe pareceu a melhor forma?

Quando comecei a gravar minhas canções, em meados dos anos 60, era não só aceitável como, às vezes, bem-vindo o uso de coloquialismos, o desrespeito à norma culta.

Havia uma idéia mais ou menos disseminada, talvez desde a época dos CPCs da UNE, de que as letras de música popular deviam se aproximar do linguajar comum.

Qual é o seu método de trabalho? É sistemático? Tem horários, disciplina? Trabalha todos os dias? Recolhese? Viaja para ter sossego?

Quando escrevo um livro, trabalho sem parar, até dormindo. Às vezes, viajo para ter sossego, às vezes, fico por aqui mesmo, mas mando dizer que estou na fazenda, embora não tenha fazenda.

Alguns autores começam a escrever e não sabem o que vai acontecer depois. Que a história se conduz sozinha. Era o que dizia Georges Simenon. Como é no seu caso?

Quando começo a escrever sei exatamente o que vai acontecer depois. Só que depois acontece outra coisa.

Rascunha, desenvolve a idéia primeiro na mente ou faz um esboço escrito? Ou escreve diretamente ao computador, sem escalas?

Escrevo rascunhos, esboços, idéias esparsas, no computador ou em qualquer papel ao alcance da mão. Quando o livro já está encaminhado, escrevo no computador, imprimo, leio, risco, rasuro, anoto, volto ao computador, imprimo, leio e assim sucessivamente. Reescrevo tudo inúmeras vezes.

Ernest Hemingway trabalhava de pé, diante da máquina de escrever posta numa plataforma alta. E você?

Escrevo sentado, mas as melhores idéias me vêm em movimento. Ando pela casa, saio andando pela rua com uma caneta e um bloco no bolso.

Demora muito para criar? Empaca às vezes? Trabalha sob pressão? Obriga-se a trabalhar? Você levava mais tempo antes do que agora para compor?

Tudo tem demorado mais, cada vez mais. Empaco muitas vezes, mas não me sinto pressionado, geralmente trabalho com prazer. Com a experiência, a gente aprende a fazer tudo mais devagar.

Como se sente quando termina um trabalho? Alívio, frustração, euforia, dor de barriga?

Vazio.

Que influências literárias recebeu?

No começo eu queria ser Rubem Braga, escrevia crônicas nos jornais do colégio. Depois quis ser escritor russo. Depois virei escritor francês, fui virando Flaubert, Zola, Proust, acabei sendo Céline, eu adorava Louis Ferdinand Destouches, dito Céline. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, eu já estava para ser Kafka, quando um colega me disse para deixar de ser besta e me mandou ler em português. Foi mais ou menos nessa época que virei Guimarães Rosa. Depois virei músico e parei de ler. Também li muito Graciliano, Vinícius, Bandeira, João Cabral, muito João Cabral.

E na música? Quem você ouviu ou ouve mais?

Ouvi de tudo, desordenadamente, mas o que mais me impressionou, e para sempre, foi a primeira audição de Chega de Saudade, de Tom e Vinicius, com João Gilberto.

Você aprendeu outras línguas sempre nos países de origem ou estudou alguma no Brasil?

Italiano aprendi na Itália, onde morei dois anos quando menino. Na mesma época aprendi inglês, língua que se falava na escola americana de Roma. O francês elementar, que aprendi no ginásio em São Paulo, aprimorei com leituras, muitas leituras. O espanhol aprendi falando, chutando, confundindo com o italiano, em minhas viagens pela América Latina. Também leio bastante em espanhol. Tenho, aliás, facilidade para desaprender essas línguas, por isso me forço a ler o que posso no original. Em 64 ou 65, fui aluno ouvinte de Boris Schnaiderman [professor de Língua e Literatura Russa] na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Eu tinha a pretensão de ler Tolstoi e Dostoievski em russo, mas não passei do alfabeto cirílico.

É muito diferente compor músicas e escrever romances ou peças?

Escrever romances é muito diferente de compor músicas. E minhas peças de teatro, peças musicais, têm mais afinidade com a música que com a literatura. A música acaba marcando a minha literatura. As personagens são obsessivas, repetem-se, são como personagens de música, são como temas de música, que tendem a repetir-se. Mas o princípio que me move é o mesmo: vontade de me comunicar.

Já abandonou projetos começados?

Bem, há projetos de canções que ficam pelo caminho, isso acontece o tempo inteiro. E agora me lembro de uma comédia teatral, O Dia em que Frank Sinatra Veio ao Brasil, projeto que abandonei com a morte de Paulo Pontes, então meu parceiro.

E já retomou alguns, depois de abandonados?

Tenho uma gaveta cheia de músicas abandonadas, mas não costumo abri-la. Eu teria dificuldade em mexer nessas músicas. elas endureceram, e aqui estou plagiando Ernst Jünger [romancista alemão, 1895- 1998], quando se referia à sua incapacidade de mexer em seus antigos escritos.

A sensibilidade feminina expressa em algumas de suas músicas (em geral temas de personagens) é tão grande que chegaram a pensar que uma mulher as tivesse composto. Sua porção mulher é muito pronunciada?

Eu é uma moça.

Você já quis botar letra em algumas músicas, mas desistiu. Lembro uma do Astor Piazzola. Isso acontece muito?

Tenho quatro gavetas cheias de músicas alheias que não consegui letrar. Essas gavetas eu abro de vez em quando, e já me aconteceu de escrever a letra para uma música que me fora enviada 15 anos antes e ainda estava maleável. Se deixo de escrever letras e músicas é simplesmente porque não dou conta do serviço, sou um artífice vagaroso. Acho até que já escrevi músicas e letras em demasia, mas ainda assim vou ficar devendo.

Suas histórias em geral são "difíceis", de estrutura incomum. Você se preocupa em ser original, não-linear? Ou elas se compõem assim naturalmente para você?

Não, não me preocupo em ser original. Acho que sou meio esquisito mesmo.

Muita gente considera Estorvo um livro difícil. Você tentou experimentar com a linguagem, com a estrutura?

Não, escrevi daquele jeito porque não sei escrever de outro.

Gostou das adaptações de seus livros para o cinema?

Gostei muito. Penso que a atmosfera de Estorvo é impossível de reproduzir em cinema. E o Ruy Guerra a reproduziu. A adaptação de Benjamin, da Monique Gardenberg, é também muito boa. É uma leitura feminina do meu livro.

As personagens de Benjamim têm nomes estranhíssimos: Castana Beatriz, Benjamim Zambraia, Ariela Mazé, Zorza, Grango, Alejandro Sgarati, Dr. Camposceleste, Cantagalo, Geovan, Gâmbolo. São apelidos de jogadores do time do seu time, o Politheama?

Não, são nomes e sobrenomes reais, do meu time de botão.

Por que Budapeste, cidade que você não conhecia? Não pensou numa cidade fictícia para ambientar a história?

Por causa da língua, que eu conhecia um pouco, umas 20 palavras e um time de futebol. Cheguei a escrever sobre um país imaginário, com uma língua inventada. Inventei umas palavras, mas não dava certo, a coisa não andava. Então me lembrei das palavras húngaras.

Alguns estranham seu novo CD à primeira audição. A maioria das músicas não é assobiável. Pelo menos não à primeira, ou às primeiras audições.

Mais de uma pessoa já disse que não é fácil gostar desse disco na primeira audição. Talvez não seja mesmo. Nisso, lembra o anterior. Mas tenho a esperança de que ele seja ouvido outras vezes. No meu caso, é difícil esperar que uma de minhas canções seja um grande sucesso, que toque no rádio. Minhas músicas agora resultam de um tempo maior de meditação, de apuro. Todas são mais trabalhadas. E não só na composição, mas nos arranjos, no estúdio. É um trabalho mais sério, mais pensado. Ele e outros não saíram assim porque eu queria fazer música pretensiosa, refinada ou rebuscada de propósito. Acho que minhas músicas mais recentes são o resultado do amadurecimento. Talvez por isso quem sabe durem mais...

Por causa desse estranhamento, você acha que seu trabalho não é bem compreendido?

Sei que em jornal, crítico de música geralmente é crítico de letra. É difícil não ser de outro jeito. A letra é visível, impressa; a partitura, não. No entanto, eu dou cada vez mais importância à música. Quase sempre faço a letra que a música pede. Todos deviam perceber que as letras não são poesia; elas se integram à música para compor uma canção. Talvez seja pedir demais.

Na música Subúrbio, você chama a atenção para a periferia do Rio...

Sim, eu quis cantar a periferia da periferia. Tem relação com a posição marginal do Brasil no mundo e com a posição cada vez mais periférica do Rio em relação às tomadas de decisão do poder, quase sempre concentradas em São Paulo. O subúrbio que eu canto é a periferia fora do mapa de uma cidade, ela própria meio marginal. Mesmo assim, o subúrbio ainda mantém um lado idílico, com suas tradições e formas de expressão próprias. Foi isso que me motivou. Não a saudade do velho Rio e do velho subúrbio, que todo mundo tem. O que me inspirou foi o subúrbio de hoje.

Depois dos governos de FHC e de Lula, você ainda tem esperanças na política?

Os dois decepcionaram. A pessoa que chega ao poder se torna um pouco o fantasma daquela que deu a vida por algo que não se realizou.

Colaboraram Fernando Faro e Selma Borhagian
- Estrangeirismo às avessas
- Quando "mais" não é "melhor"
- Shakespeare à brasileira
- Pronome e retórica

 
 
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